AMOR SEM MEDO Domingo, 15 de Fevereiro de 2026, 16:03 - A | A

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CONTROLE E SOFRIMENTO

Violência vicária: caso em Goiás expõe forma extrema de violência de gênero no Brasil

Da Redação com Agência Brasil

Em meio aos diversos registros de violência contra a mulher no Brasil, um caso ocorrido no interior de Goiás trouxe à tona uma prática ainda pouco debatida fora dos círculos especializados: a chamada violência vicária, modalidade em que o agressor atinge filhos, familiares ou pessoas próximas com o objetivo de punir psicologicamente a mulher.

Na última quarta-feira (11), em Itumbiara (GO), o então secretário de Governo do município, Thales Machado, atirou contra os dois filhos dentro da residência onde morava e, em seguida, tirou a própria vida. Um dos meninos, de 12 anos, morreu no local. O irmão, de 8 anos, chegou a ser socorrido em estado gravíssimo, mas faleceu horas depois.

O episódio provocou comoção nacional e reacendeu discussões sobre a responsabilização do agressor e a recorrente culpabilização da mulher vítima.

O que é violência vicária?

Em entrevista à Agência Brasil, a secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, Estela Bezerra, explicou que a violência vicária ocorre quando o agressor utiliza pessoas com forte vínculo afetivo com a mulher — principalmente filhos — para provocar dor, punição ou retaliação.

“Na maioria das vezes, são utilizadas crianças e adolescentes porque representam o maior vínculo afetivo da mãe. O objetivo é penalizá-la”, afirmou.

Segundo ela, o agressor frequentemente constrói uma narrativa pública para se colocar como vítima e responsabilizar a companheira pelo crime cometido. Antes de cometer suicídio, o autor do caso em Itumbiara publicou nas redes sociais uma carta mencionando suposta traição e crise conjugal.

Para Estela, trata-se de um mecanismo de manipulação: o autor pratica o crime e, simultaneamente, transfere a culpa à mulher, reforçando uma lógica machista que naturaliza a responsabilização feminina mesmo diante da violência sofrida.

Violência sistemática e pouco debatida

De acordo com a secretária, casos de violência vicária são mais comuns do que se imagina no Brasil, mas raramente recebem essa denominação.

Ela cita que a prática pode variar desde ameaças envolvendo filhos até agressões físicas, sequestro, retenção ilegal de crianças, manipulação emocional e afastamento forçado da convivência familiar.

A violência vicária é considerada uma forma de violência de gênero porque tem como alvo final a mulher — ainda que o dano imediato recaia sobre crianças ou outros vínculos afetivos.

Reconhecimento institucional e políticas públicas

O Instituto Maria da Penha, organização da sociedade civil que atua no enfrentamento à violência doméstica, afirma que a violência vicária não pode ser tratada como conflito familiar, mas como grave violação de direitos humanos.

A entidade destaca que o Brasil reconheceu oficialmente a violência vicária como forma de violência de gênero por meio de resolução conjunta do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, estabelecendo diretrizes para atuação do Sistema de Garantia de Direitos.

Já a Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO) publicou nota reforçando que ferir filhos para atingir a mãe é crime e que a responsabilidade é exclusivamente de quem pratica a violência.

Em novembro de 2024, o órgão realizou a campanha “Ela Não Tem Culpa – 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher”, com foco na desconstrução da culpabilização feminina.

Cultura machista e assimetria de gênero

A violência vicária está inserida em um contexto mais amplo de desigualdade estrutural de gênero. A assimetria entre homens e mulheres na política, na economia e nas relações privadas cria um ambiente onde a violência se torna instrumento de controle e manutenção de poder.

A maior expressão dessa desigualdade, segundo Estela Bezerra, é justamente o uso da violência como mecanismo de subjugação.

Nomear a violência, reforçam as entidades ouvidas, é passo fundamental para enfrentá-la. Informação qualificada e circulação de conhecimento são considerados instrumentos de proteção — tanto para mulheres quanto para crianças.

Entenda mais sobre a violência vicária no vídeo abaixo: 



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