Cerca de 78% dos pais abandonam mães de crianças com deficiência antes de os filhos completarem cinco anos de idade, segundo dados do Instituto Baresi. O índice revela uma realidade silenciosa enfrentada por milhares de mulheres brasileiras, que passam a assumir sozinhas a responsabilidade pelos cuidados, tratamentos e desenvolvimento dos filhos. Além da sobrecarga emocional e financeira, ainda existem os impactos que a ausência paterna provoca na formação das crianças e na saúde mental das mães.
A discussão ganhou novo fôlego após uma decisão recente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que autorizou a retirada do sobrenome paterno em um caso de abandono afetivo. A medida reforça o entendimento de que o vínculo biológico, por si só, não substitui presença, cuidado e responsabilidade.
Em entrevista ao programa Papo com Ela, a psicóloga Isabel Leite destacou que o abandono paterno vai muito além da ausência física. Segundo ela, os prejuízos atingem toda a estrutura familiar.
“O impacto é sistêmico. Afeta a questão financeira, emocional, comportamental e até o desenvolvimento cognitivo da criança. Muitas mães ficam sobrecarregadas e não conseguem oferecer todo o suporte que gostariam porque precisam dar conta de inúmeras responsabilidades sozinhas”, explica.
A especialista observa que a maternidade atípica exige uma dedicação ainda maior. Consultas médicas, terapias, acompanhamento escolar e supervisão constante fazem parte da rotina de muitas famílias. Quando o pai se afasta, toda essa demanda passa a recair sobre uma única pessoa.
“Essa mulher frequentemente deixa de cuidar de si mesma. Ela abre mão do descanso, da vida social, dos projetos pessoais e até da própria saúde para atender às necessidades do filho”, afirma.
A cultura ainda contribui para a naturalização desse cenário. A ideia de que os cuidados com os filhos são responsabilidade prioritária da mãe continua presente em parte da sociedade, o que favorece a omissão paterna. “Existe uma falsa percepção de que a maternidade é uma obrigação natural da mulher. A paternidade precisa ser compreendida também como um compromisso afetivo, emocional e cotidiano”, ressalta.
A psicóloga destaca ainda que muitas mães vivenciam processos simultâneos de luto. O primeiro ocorre quando recebem o diagnóstico da deficiência do filho e precisam reorganizar expectativas e projetos. O segundo acontece quando enfrentam o abandono do companheiro. “É uma dupla perda. E muitas vezes elas não têm sequer tempo para elaborar esses sentimentos, porque precisam continuar cuidando da criança e garantindo o funcionamento da casa”.
Apoio faz a diferença
Familiares, amigos e empregadores podem desempenhar papel fundamental na redução da sobrecarga enfrentada por mães atípicas. Pequenas atitudes, como ajudar no transporte da criança, acompanhar consultas ou oferecer algumas horas de descanso para a mãe, podem representar um importante suporte emocional.
No ambiente profissional, Isabel Leite defende políticas mais flexíveis que permitam conciliar trabalho e cuidados familiares, especialmente em situações que envolvam terapias, consultas médicas e adaptações escolares. “Não se trata necessariamente de reduzir a carga horária, mas de criar mecanismos de flexibilidade que permitam à mãe cumprir suas responsabilidades sem comprometer sua permanência no mercado de trabalho”.
Paternidade em discussão
Para enfrentar o problema, a psicóloga acredita que a sociedade precisa ampliar o debate sobre responsabilidade parental. Segundo ela, as famílias costumam preparar crianças e adolescentes para a vida profissional, mas pouco discutem o significado da construção de uma família e das responsabilidades envolvidas na criação dos filhos.
“A paternidade e a maternidade precisam ser entendidas como compromissos permanentes. Quando isso é trabalhado desde cedo, aumentam as chances de formarmos adultos mais preparados para assumir essas responsabilidades”.
Enquanto o debate avança, milhares de mães seguem enfrentando diariamente os desafios da maternidade atípica sozinhas. Uma realidade que evidencia a necessidade de políticas públicas, apoio social e maior conscientização sobre o papel da paternidade na construção de famílias mais saudáveis e equilibradas.
Assista à entrevista na íntegra:






