Histórias que durante décadas permaneceram restritas à memória de seus protagonistas agora ganham registro permanente. Em Mato Grosso, o Almonaque de Histórias LGBTI+ reúne trajetórias, personagens, espaços de convivência e acontecimentos marcantes da população LGBTI+, ajudando a preservar uma memória que, em muitos casos, corria o risco de desaparecer com o tempo. O projeto foi idealizado pelo jornalista e pesquisador Marcos Salesi e pela professora Bruna Irineu, com o objetivo de documentar experiências que raramente aparecem nos registros oficiais da história do estado.
Em entrevista ao programa Papo com Ela, Marcos Salesi explicou que a iniciativa nasceu a partir de pesquisas acadêmicas realizadas ainda durante sua graduação em Jornalismo e posteriormente aprofundadas no mestrado. Apesar da existência de artigos científicos, reportagens e estudos sobre a população LGBTI+, as informações permaneciam dispersas, dificultando o acesso e a preservação dessa memória.
“Existiam registros importantes, mas espalhados em diferentes áreas do conhecimento. Faltava um espaço capaz de reunir essas histórias e permitir que elas fossem conhecidas pelas futuras gerações”, afirma.
Mais do que reunir documentos já existentes, o projeto também registrou relatos inéditos e histórias que permaneciam apenas na tradição oral. Durante as pesquisas, Salesi encontrou referências à AGEMAT, considerada uma das primeiras associações de gays de Mato Grosso, citada em reportagens da década de 1980. A descoberta revelou que a organização política da comunidade começou antes do que apontavam alguns registros históricos.
“O tempo também nos mostra a urgência desse trabalho. Muitas pessoas que viveram esses momentos históricos já estão idosas ou faleceram. Se essas memórias não forem registradas, elas podem desaparecer”.
O Almonaque reúne cerca de 40 textos produzidos por aproximadamente 25 autores e está organizado em diferentes eixos temáticos, incluindo biografias, lugares de memória, movimentos sociais e acontecimentos históricos.
História que também é de Mato Grosso
Ao longo da pesquisa, os organizadores identificaram a presença de pessoas LGBTI+ em diversos setores da sociedade mato-grossense, como cultura, educação, saúde, política e comunicação. Para Salesi, uma das principais contribuições do projeto é ampliar o reconhecimento dessas trajetórias dentro da história oficial do estado.
“Muitas pessoas LGBTI+ ajudaram a construir Mato Grosso, mas suas contribuições nem sempre aparecem nos registros históricos. O Almonaque também é uma forma de reivindicar esse espaço na memória coletiva”, afirma.
O pesquisador destaca que a preservação da memória está diretamente relacionada à cidadania e ao reconhecimento social. “Memória também é um direito. Registrar essas histórias significa garantir que elas não sejam apagadas e que as próximas gerações possam conhecer essas trajetórias.”
Outro aspecto destacado pelos organizadores é o fato de a maior parte da obra ter sido produzida por pesquisadores e autores da própria comunidade LGBTI+. Segundo Salesi, o aumento do acesso ao ensino superior por pessoas LGBT tem permitido uma mudança importante na produção do conhecimento.
“Durante muito tempo, outras pessoas escreveram sobre nós. Hoje, cada vez mais, estamos produzindo nossas próprias narrativas e registrando nossas próprias histórias”, observa.
O pesquisador ressalta ainda a importância das políticas de inclusão educacional para ampliar a participação da população LGBT na pesquisa acadêmica e na produção cultural.
O Almonaque de Histórias LGBTI+ de Mato Grosso foi viabilizado por meio da Lei Paulo Gustavo e está disponível gratuitamente em formato digital.
Além da versão em PDF, o projeto conta com uma edição em áudio, ampliando a acessibilidade para diferentes públicos.
Nos próximos meses, exemplares impressos também deverão ser distribuídos para escolas, bibliotecas e instituições culturais de Mato Grosso e de outros estados.
A expectativa dos organizadores é que o material se torne uma ferramenta de pesquisa, educação e preservação da memória, além de estimular novas iniciativas de documentação histórica da população LGBTI+ brasileira. “Esse é apenas o primeiro volume. Existem muitas outras histórias que ainda precisam ser contadas”.
Assista à entrevista na íntegra:
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