#PAPO COM ELA Domingo, 15 de Fevereiro de 2026, 14:33 - A | A

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AMOR LÍQUIDO

Celibato voluntário cresce entre mulheres e reflete mudanças nas relações modernas

Michely Figueiredo



Em um cenário marcado por relações cada vez mais instáveis, um movimento tem ganhado força silenciosamente entre mulheres brasileiras: o celibato voluntário. Longe de representar rejeição ao amor ou falta de oportunidade para se relacionar, a decisão tem sido interpretada como estratégia de autocuidado e proteção emocional. A socióloga e cientista política Christiany Fonseca explica que o fenômeno está diretamente ligado às transformações sociais das últimas décadas.

“Não se trata de ausência de opção. O celibato voluntário é uma escolha por qualidade. As mulheres não estão dizendo que não querem amar, mas que não aceitam mais relações frágeis, descartáveis ou sem compromisso”, afirma.

Para compreender o fenômeno, Christiany recorre ao sociólogo Zygmunt Bauman, autor do livro Amor Líquido. O pensador analisou como a lógica do consumo passou a influenciar também os vínculos afetivos.

“Bauman dizia que nada mais é feito para durar. Essa característica do mercado, onde bens são trocados a qualquer momento, passou a atravessar as relações amorosas. Qualquer conflito já se torna motivo para desistência”.

Dentro dessa dinâmica, comportamentos como ghosting (desaparecimento sem explicação), love bombing (excesso de intensidade seguido de distanciamento brusco) e breadcrumbing (as chamadas “migalhas emocionais”) tornaram-se frequentes.

“O ghosting gera frustração e culpa. A mulher começa a se perguntar o que fez de errado. Já o love bombing cria uma falsa segurança que depois é retirada de forma abrupta. E o breadcrumbing mantém a mulher como opção, mas nunca como prioridade”, pontua Christiany.

Em meio a esse cenário, a escolha pelo celibato voluntário aparece como mecanismo de proteção emocional. “Hoje, quando falamos em relacionamento, muitas vezes não estamos falando de estabilidade, mas de insegurança. O celibato surge como priorização da saúde mental”.

Fonseca destaca que a decisão não deve ser confundida com solidão. “É importante diferenciar solidão de solitude. Solidão é abandono. Solitude é escolha. É estar consigo mesma por decisão, como forma de autoconhecimento.”

Produções culturais como o filme Comer, Rezar, Amar ilustram essa fase de redescoberta individual. Já séries como Fleabag retratam o cansaço emocional diante de relações frustradas.

Empoderamento e ruptura com o “fato social”

A autonomia financeira e a inserção das mulheres no mercado de trabalho também alteraram profundamente esse cenário. Christiany lembra que, historicamente, o casamento era quase uma imposição social. Ela cita o sociólogo Émile Durkheim, que defendia que a sociedade se sobrepõe ao indivíduo por meio do que chamou de “fato social”.

“Durante muito tempo, a mulher precisava casar e ter filhos para ser considerada completa. Hoje, com independência financeira e consciência de direitos, ela pode romper com essa imposição.”

Ainda assim, o julgamento social permanece. “Uma mulher acima dos 40 anos, solteira e sem filhos, ainda é questionada. Mas agora ela consegue sustentar sua escolha.”

Aplicativos de relacionamento também contribuem para a fragilidade dos vínculos. “Existe a sensação de cardápio humano. A cada clique pode surgir alguém ‘melhor’. Isso reforça a ideia de consumo nas relações”, analisa.

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o Brasil já registra mais pessoas solteiras do que casadas — um reflexo das transformações nas dinâmicas familiares. O Censo 2022 aponta que existem aproximadamente 81 milhões de pessoas solteiras (sem união formal), contra cerca de 63 milhões de casadas.

Um fenômeno social em construção

Para Christiany Fonseca, o celibato voluntário começa a deixar de ser apenas uma decisão individual e passa a configurar um fenômeno social. “As mulheres estão dizendo que não aceitam migalhas emocionais. Querem parceria real, porto seguro e estabilidade. Não é rejeição ao amor, é rejeição ao pouco.”

Segundo ela, o movimento pode provocar tensionamentos, inclusive no comportamento masculino. “Talvez não haja mudança imediata. Mas quanto mais mulheres se posicionarem, mais será necessário repensar os modelos de relacionamento.”

 



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