A descoberta de uma traição costuma provocar uma das dores mais profundas dentro de um relacionamento. Além da sensação de abandono e da quebra da confiança, surge uma pergunta quase inevitável: por quê?
A resposta, segundo a psicóloga Isolde Coimbra, está longe de ser simples. Em entrevista ao programa Papo com Ela, ela afirmou que a infidelidade raramente pode ser explicada apenas por uma questão de caráter. Na maioria dos casos, o comportamento é resultado de um conjunto de fatores emocionais, históricos e relacionais que se acumulam ao longo do tempo.
“A traição é uma consequência. Normalmente existe um processo anterior de desconexão emocional, dificuldades de comunicação ou padrões que a pessoa vem repetindo ao longo da vida”, explica.
Segundo a especialista, um dos fatores mais comuns observados em atendimentos de casais é justamente a perda da conexão emocional. Pressões da rotina, problemas financeiros, criação dos filhos, excesso de trabalho e conflitos não resolvidos acabam afastando os parceiros gradualmente.
“Os casais conversam sobre contas, filhos e compromissos, mas deixam de falar sobre sentimentos. Quando as mágoas não são tratadas, instala-se um silêncio emocional que gera distanciamento”, afirma.
Para Isolde, relacionamentos saudáveis não são aqueles que não enfrentam problemas, mas os que conseguem superá-los por meio do diálogo.“Resolver conflito não significa brigar. Significa conseguir dizer ao outro o que está incomodando antes que a distância emocional se torne um abismo.”
Quando a traição acontece, o maior dano costuma atingir a confiança. Mais do que a quebra da exclusividade, o parceiro traído passa a questionar a própria história construída a dois. “A pessoa percebe que o casamento idealizado talvez não existisse da forma como imaginava. Ela também passa a enxergar o parceiro sob uma nova perspectiva”, observa.
Apesar disso, a psicóloga acredita que a reconstrução da relação é possível. “É o que mais fazemos em consultório: restauração de casamentos. Mas isso exige disposição dos dois lados.”
Ela explica que o parceiro que rompeu a confiança precisa assumir a responsabilidade pelos seus atos e aceitar um processo de reconquista que pode incluir maior transparência na rotina, abertura sobre questões financeiras e fim de segredos que antes pareciam irrelevantes. “Quem quebrou a confiança normalmente paga um preço maior porque terá de reconstruí-la dia após dia.”
Padrões familiares que atravessam gerações
Outro aspecto importante destacado por Isolde é a influência da história familiar sobre os relacionamentos. Segundo ela, muitos comportamentos são repetidos inconscientemente ao longo das gerações.
“Através de instrumentos terapêuticos, como o genograma familiar, muitas vezes identificamos que o avô traiu a avó, o pai traiu a mãe e esse padrão acaba sendo reproduzido sem que a pessoa tenha consciência.”
Romper esse ciclo exige autoconhecimento. “O primeiro passo é reconhecer que existe um padrão. O segundo é decidir conscientemente que não quer mais reproduzi-lo.”
Feridas da infância dentro do casamento
Durante a entrevista, a psicóloga também abordou um conceito amplamente utilizado na terapia dos esquemas: as necessidades emocionais básicas da infância. Ela explica que experiências vividas nos primeiros anos de vida influenciam diretamente a forma como os adultos se relacionam.
Entre essas necessidades estão o vínculo seguro, a autonomia, a autoestima, os limites saudáveis e a capacidade de experimentar prazer e lazer.
Quando alguma dessas áreas não é adequadamente desenvolvida, surgem vulnerabilidades emocionais que costumam aparecer com força nos relacionamentos amorosos.
“Pessoas que sofreram abandono podem se tornar excessivamente ciumentas. Quem não desenvolveu autonomia tende à dependência emocional. Já aqueles que cresceram sem validação emocional podem ter baixa autoestima e viver em constante necessidade de aprovação.”
Segundo Isolde, muitos conflitos conjugais são, na verdade, reações de feridas antigas que continuam abertas. “Às vezes uma simples frase dita pelo parceiro ativa memórias emocionais profundas que não têm relação direta com a situação atual.”
Para a especialista, a comunicação afetiva continua sendo a principal ferramenta para evitar a desconexão e fortalecer os vínculos. Ela defende que muitos casais falham não por falta de amor, mas por não saberem se comunicar adequadamente.
“Grande parte das pessoas não aprendeu a falar sobre emoções dentro da própria família. Quando surgem os conflitos, elas simplesmente não sabem como agir.”
Uma das estratégias sugeridas é substituir acusações por perguntas. “Perguntas acessam o coração. Em vez de atacar, pergunte: ‘O que está acontecendo com você?’, ‘Por que isso te incomodou?’, ‘Como você está se sentindo?’.”
Segundo ela, esse tipo de abordagem reduz a postura defensiva e amplia as possibilidades de compreensão mútua.
A entrevista também abordou um tema frequentemente associado às crises conjugais: a sexualidade. Isolde ressalta que longos períodos de afastamento íntimo podem contribuir para a desconexão do casal, embora não expliquem sozinhos uma traição.
“É um dos fatores que podem impactar a relação, especialmente quando não existe diálogo sobre as necessidades e expectativas de cada um.”
Ela observa que homens e mulheres costumam vivenciar o desejo de maneiras diferentes e que compreender essas diferenças é fundamental para preservar a intimidade.
Restaurar é possível
Ao final da conversa, a psicóloga reforçou uma mensagem de esperança para casais que enfrentam crises. “Nem toda traição significa o fim de um casamento. Quando existe disposição para compreender o que aconteceu, assumir responsabilidades e reconstruir a confiança, é possível restaurar a relação.”
Para ela, investir em autoconhecimento, comunicação e terapia não fortalece apenas os relacionamentos, mas também a própria capacidade de lidar com as dores emocionais. “Relacionamentos saudáveis não acontecem por acaso. Eles são construídos diariamente, com diálogo, consciência e disposição para crescer junto.”
Assista à entrevista na íntegra






