A menstruação continua sendo um tema cercado por tabus e desinformação para grande parte das mulheres. Segundo a fisioterapeuta pélvica Fabiane Monteiro, cerca de 80% das pacientes que atende diariamente chegam ao consultório com informações insuficientes ou equivocadas sobre o próprio ciclo menstrual, realidade que pode impactar diretamente a qualidade de vida, o diagnóstico precoce de doenças e o acesso à chamada dignidade menstrual.
A avaliação foi feita durante entrevista ao programa Papo com Ela, na qual a especialista abordou desde os mitos relacionados à menstruação até a importância do acompanhamento ginecológico e da fisioterapia pélvica para a saúde feminina.
De acordo com Fabiane, a menstruação costuma ser o primeiro grande tabu enfrentado pelas mulheres ainda na adolescência. Ela destaca que muitas meninas sentem vergonha de falar sobre o tema, inclusive em ambientes escolares e familiares. “A saúde íntima sempre foi tratada como tabu e a menstruação acaba sendo a primeira experiência desse silêncio. Muitas meninas têm vergonha de dizer que estão menstruadas ou que estão sentindo cólicas”, afirmou.
Para a especialista, a falta de diálogo contribui para que muitas mulheres cresçam sem compreender adequadamente o funcionamento do próprio corpo.
Cólica incapacitante não é normal
Durante a entrevista, Fabiane chamou atenção para um erro comum: acreditar que toda dor menstrual é normal. Segundo ela, um leve desconforto pode ocorrer em razão da descamação do endométrio, processo fisiológico do ciclo menstrual. No entanto, dores intensas que impedem a mulher de trabalhar, estudar ou realizar atividades cotidianas devem ser investigadas.
“Não é normal sentir uma cólica incapacitante. Toda dor que limita a rotina merece atenção médica, porque pode estar associada a condições como a endometriose”, alertou.
Fabiane explicou que muitas pacientes convivem por anos com sintomas severos por acreditarem que a dor faz parte da experiência feminina.
Outro tema discutido foi o crescente interesse por métodos hormonais que interrompem o ciclo menstrual. Embora a medicina considere esses recursos seguros em diversas situações, Fabiane pondera que a decisão deve ser tomada com orientação profissional e acompanhamento adequado.
Ela observa que algumas mulheres passam anos sem menstruar e, quando desejam engravidar, enfrentam dificuldades para retomar a regularidade do ciclo. “Cada organismo responde de uma forma. Por isso, o acompanhamento médico é fundamental para avaliar riscos e benefícios de qualquer método”, destacou.
Dignidade menstrual vai além do absorvente
Ao falar sobre dignidade menstrual, a fisioterapeuta defendeu que o conceito envolve não apenas o acesso a produtos de higiene, mas também informação de qualidade e autonomia para que cada mulher possa fazer escolhas conscientes sobre o próprio corpo. Ela lembrou que absorventes, coletores menstruais, calcinhas absorventes e outros dispositivos ainda representam um custo elevado para muitas famílias brasileiras.
“A dignidade menstrual começa quando a mulher tem informação correta e condições de decidir sobre a própria saúde”, afirmou.
Entre os principais problemas observados no consultório, Fabiane aponta o excesso de autodiagnósticos feitos pela internet. De acordo com a fisioterapeuta pélvica, muitas pacientes chegam assustadas após pesquisas em mecanismos de busca, acreditando ter doenças graves quando, em alguns casos, apresentam apenas alterações musculares ou condições simples de tratar.
“Quem não sabe exatamente o que está procurando acaba encontrando informações que geram medo e confusão”, disse.
A recomendação é buscar conteúdos produzidos por profissionais habilitados e, sempre que possível, procurar avaliação presencial.
A especialista também destacou o papel da fisioterapia pélvica no tratamento de dores menstruais, dores durante a relação sexual e casos de incontinência urinária. O assoalho pélvico é uma estrutura muscular essencial para a sustentação dos órgãos da pelve e para funções como continência urinária e saúde sexual.
Fabiane ressaltou que muitas mulheres desconhecem a necessidade de fortalecer essa musculatura e acabam convivendo com sintomas que poderiam ser tratados. “Não é normal perder urina, sentir dor pélvica ou sentir dor na relação sexual. Esses sinais precisam ser investigados”, enfatizou.
Ao final da entrevista, a fisioterapeuta defendeu que o combate à desinformação passa pela troca de experiências entre mulheres. Para ela, conversar abertamente sobre menstruação, cólicas, incontinência urinária e saúde íntima pode contribuir para que mais mulheres procurem ajuda e tenham acesso a tratamentos adequados.
“Precisamos falar mais sobre esses assuntos entre amigas, mães, filhas e familiares. Muitas vezes, uma dúvida que você tem também é a dúvida de outra mulher”.
Assista à entrevista na íntegra






