NOTICIÁRIO Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026, 11:39 - A | A

Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026, 11h:39 - A | A

IMUNIZAÇÃO EM ALERTA

Baixa vacinação expõe Cuiabá à influenza

Mauro Camargo e Michely Figueiredo

Arquivo Pessoal

Deisi Bocalon

A baixa cobertura vacinal contra a influenza tornou-se um dos principais desafios imediatos da saúde pública em Cuiabá. Entre as crianças de seis meses a menores de seis anos, apenas 37,72% receberam a vacina. Entre os idosos com 60 anos ou mais, o índice chega a 40,13%. Os dois grupos estão muito distantes da meta de 90% estabelecida pelo Ministério da Saúde.

Os números ajudam a dimensionar o alerta apresentado pela secretária municipal de Saúde, Deisi Bocalon, em entrevista à jornalista Michely Figueiredo, no Jornal da Cultura, da Rádio Cultura 90.7. À frente da pasta há quatro meses, Deisi atribuiu parte da resistência à vacinação às dúvidas disseminadas durante a pandemia e à atuação dos movimentos antivacina.

“Vacinação é muito importante. Tivemos vários episódios que contribuíram para a queda da cobertura, muitas incógnitas durante a pandemia e muitos movimentos antivacina. Tudo isso gerou muita dúvida”, afirmou.

O problema não se limita ao descumprimento de uma meta administrativa. Dados atualizados pela Secretaria Municipal de Saúde em 5 de agosto mostram que a influenza atingiu precisamente os grupos que deveriam estar mais protegidos.

Entre janeiro e julho deste ano, Cuiabá registrou 2.348 casos de influenza A e B na população considerada prioritária para a vacinação. Desse total, 957 ocorreram em crianças de até seis anos e 172 em idosos. A doença provocou 14 mortes no período.

Cobertura está abaixo da metade

Cuiabá possui uma população estimada de 50.121 crianças entre seis meses e menores de seis anos. Até 5 de agosto, haviam sido aplicadas 18.905 doses, correspondentes a 37,72% do público.

Entre os 98.078 idosos com 60 anos ou mais, 39.354 haviam sido vacinados, o equivalente a 40,13%. As gestantes apresentam desempenho melhor, mas também insuficiente: 61%, com 4.143 doses aplicadas.

Nenhum desses grupos atingiu a meta de 90%.

A vacina está disponível gratuitamente nas 72 Unidades de Saúde da Família de Cuiabá. Parte das unidades funciona em horário estendido, algumas até as 21h. A prefeitura também realiza vacinação fora dos postos, em escolas, maternidades, hospitais, residências terapêuticas, centros de convivência de idosos e espaços de grande circulação.

O conjunto de ações indica que a dificuldade não está apenas na oferta das doses. Existe também um problema de adesão.

Deisi afirmou que o município pretende intensificar a vacinação em escolas e iniciar novas ações nas maternidades. A estratégia procura alcançar crianças, gestantes e puérperas, públicos nos quais a imunização reduz o risco de complicações, internações e mortes.

Vacina da gripe precisa ser anual

Uma das dúvidas frequentes é por que a vacina contra a influenza deve ser tomada todos os anos. A explicação está nas características do vírus.

Os vírus influenza sofrem alterações ao longo do tempo. Por isso, a composição do imunizante é atualizada para acompanhar as cepas com maior probabilidade de circulação em cada temporada.

“A vacina que você tomou no ano anterior não protege adequadamente para a temporada seguinte. É necessário tomar uma vez por ano porque ela é fabricada de acordo com os vírus circulantes”, explicou a secretária.

A vacina não impede todos os episódios de gripe. Sua função mais importante é reduzir a probabilidade de formas graves, hospitalizações e mortes, especialmente entre crianças pequenas, idosos, gestantes, puérperas e pessoas com doenças crônicas.

Essa distinção é necessária porque parte da desinformação utiliza a ocorrência de infecção em pessoas vacinadas como suposta prova de ineficácia. Nenhuma vacina oferece proteção absoluta. O resultado deve ser medido principalmente pela redução de complicações e óbitos.

Desinformação da pandemia deixou sequelas

A secretária reconheceu que as controvérsias ocorridas durante a pandemia afetaram a confiança da população em outras vacinas, inclusive imunizantes utilizados há décadas.

A covid-19 exigiu a produção acelerada de vacinas diante de uma emergência que causava milhões de mortes. O prazo foi encurtado pela combinação de investimentos elevados, cooperação científica internacional, tecnologias já pesquisadas anteriormente e realização simultânea de etapas que normalmente ocorreriam de forma sucessiva.

Isso não significa que as fases obrigatórias de avaliação de eficácia e segurança tenham sido dispensadas. Os imunizantes foram submetidos a ensaios clínicos e permaneceram sob monitoramento depois do início da aplicação.

Eventos adversos raros foram identificados e investigados pelos órgãos reguladores. Em alguns casos, recomendações foram modificadas ou determinados produtos deixaram de ser utilizados. Esse processo não comprova que a vacinação seja insegura. Ao contrário: demonstra que os sistemas de farmacovigilância são capazes de identificar riscos e ajustar as políticas sanitárias.

O efeito político da pandemia, no entanto, ultrapassou a covid-19. A dúvida lançada sobre um imunizante passou a atingir vacinas consolidadas contra sarampo, poliomielite, tuberculose, coqueluche, hepatites e outras doenças.

“Precisamos orientar a população de que as vacinas oferecidas são seguras e amplamente testadas. Muitas delas são históricas e possuem um nível de segurança muito grande”, disse Deisi.

Sarampo exige atenção também dos adultos

A vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, está disponível nas unidades básicas de Cuiabá. A imunização não se destina apenas às crianças.

Conforme o Calendário Nacional de Vacinação, pessoas com até 29 anos devem comprovar duas doses. Adultos entre 30 e 59 anos que não estejam vacinados devem receber uma dose. Trabalhadores da saúde precisam de duas doses, independentemente da idade dentro da faixa indicada.

A recomendação ganhou importância diante do aumento de casos de sarampo em diferentes regiões. Como o vírus é altamente transmissível, a queda da cobertura cria condições para surtos a partir de um único caso importado ou de uma cadeia local não identificada.

Deisi relatou que Cuiabá já precisou realizar bloqueio vacinal após a confirmação de caso suspeito ou confirmado. O bloqueio consiste em identificar contatos e vacinar rapidamente as pessoas expostas para interromper a transmissão.

Movimentos migratórios e viagens internacionais aumentam a circulação de pessoas entre países com diferentes situações epidemiológicas. Isso exige vigilância, acolhimento e atualização da caderneta vacinal de brasileiros e estrangeiros. A entrada de migrantes, isoladamente, não explica o retorno de doenças. O principal fator que permite a propagação é a existência de grupos sem proteção adequada.

Gotinha foi substituída pela vacina injetável

Ao citar as vacinas tradicionais da infância, a secretária mencionou a Sabin, conhecida como “gotinha”. O Calendário Nacional, porém, passou por uma mudança importante.

Desde 2024, o Brasil adotou esquema exclusivamente injetável contra a poliomielite, com a Vacina Inativada Poliomielite (VIP). Em agosto de 2026, o Ministério da Saúde incluiu um segundo reforço da VIP aos quatro anos.

A substituição da vacina oral não significa redução da proteção. A mudança segue a estratégia de erradicação mundial da doença e elimina o risco, extremamente raro, associado ao vírus atenuado presente na antiga vacina oral.

A poliomielite foi eliminada do Brasil, mas ainda não foi erradicada do mundo. Enquanto houver circulação internacional, a queda da cobertura mantém o risco de reintrodução.

Multivacinação terá Dia D

Cuiabá realizará no dia 22 de agosto um Dia D de Multivacinação nas 72 Unidades de Saúde da Família. A mobilização integra a campanha nacional, iniciada em 3 de agosto e prevista para seguir até 1º de setembro.

Serão oferecidas vacinas contra tuberculose, poliomielite, sarampo, caxumba, rubéola, hepatites A e B, febre amarela, influenza, covid-19, meningites, rotavírus, HPV, varicela, difteria, tétano e coqueluche, conforme a idade e o histórico vacinal.

A orientação é apresentar documento pessoal, Cartão SUS e caderneta de vacinação. Quem perdeu a caderneta deve procurar a unidade de saúde para que a equipe verifique os registros disponíveis e defina o esquema necessário.

A Secretaria de Saúde também aguarda orientação estadual para ampliar a vacinação contra a gripe à população em geral, preservando estoque suficiente para os grupos prioritários.

Filas, reformas e medicamentos

Embora a vacinação tenha ocupado a primeira parte da entrevista, Deisi também apresentou um balanço dos quatro meses de gestão. Ela informou que a secretaria encaminhou ao Ministério Público uma proposta de repactuação do Termo de Ajustamento de Conduta firmado depois da intervenção estadual de 2023.

A secretária afirmou que o pregão para aquisição de medicamentos foi homologado e que existem faltas pontuais provocadas por itens fracassados na licitação ou atrasos de fornecedores. Segundo ela, foram realizadas aquisições superiores a R$ 23 milhões.

Na área de infraestrutura, Deisi informou que as reformas das policlínicas do Coxipó, Planalto e Três Barras/União estão em fase preparatória. A Policlínica do Coxipó recebeu R$ 4 milhões destinados pelo deputado estadual Lúdio Cabral. A previsão apresentada é concluir a unidade entre setembro e outubro de 2027.

O CAPS 24 horas planejado para funcionar na antiga Policlínica do Verdão teve a obra atrasada. A empresa responsável deverá ser formalmente notificada, e a nova previsão de entrega é novembro.

Fila Zero movimenta R$ 20 milhões

Cuiabá também participa do programa Fila Zero, do Governo do Estado. Segundo a secretária, o município apresentou propostas superiores a R$ 57 milhões e já faturou mais de R$ 20 milhões em procedimentos desde o início da atual gestão.

A estratégia inclui contratar serviços da rede privada para reduzir filas antigas de oftalmologia, otorrinolaringologia, cirurgias ortopédicas e bariátricas. Deisi disse que mais de 18 pacientes já passaram por cirurgia bariátrica dentro do programa.

A implantação do Regula MT deverá permitir que o paciente consulte sua posição na fila. Antes da migração, as listas passarão por uma revisão para identificar pessoas que já realizaram o procedimento, mudaram de contato ou não precisam mais do atendimento.

Apesar da amplitude dos demais problemas, a secretária encerrou a entrevista retomando a vacinação. O gesto indica a dimensão que o tema assumiu na administração da saúde municipal.

Cuiabá possui vacinas, unidades e equipes. O desafio é reconstruir a confiança e transformar disponibilidade em proteção efetiva. Quando menos de quatro em cada dez crianças e idosos estão vacinados contra a influenza, a distância entre o serviço oferecido e o resultado alcançado deixa de ser apenas estatística. Ela aparece nas internações, nos casos graves e nas mortes que poderiam ser evitadas.

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Título SEO: Cuiabá tem baixa vacinação contra influenza e registra 14 mortes

Chamada para capa: Cobertura contra a gripe está em 37,72% entre crianças e 40,13% entre idosos, muito abaixo da meta de 90%.

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Meta descrição: Cuiabá registra baixa cobertura contra influenza, 2.348 casos e 14 mortes nos grupos prioritários. Crianças e idosos têm menos de 41% de vacinação.

NOTA DE TRANSPARÊNCIA

Esta reportagem (texto e edição) foi produzida a partir da entrevista concedida pela secretária municipal de Saúde de Cuiabá, Deisi Bocalon, à jornalista Michely Figueiredo. As declarações foram editadas para eliminar repetições e marcas da linguagem oral, sem alteração de sentido. Os números da vacinação e da influenza foram confrontados com informações oficiais divulgadas pela Prefeitura de Cuiabá em 5 de agosto de 2026. As orientações sobre sarampo, influenza e poliomielite foram verificadas no Calendário Nacional de Vacinação e em comunicados do Ministério da Saúde. A menção à antiga vacina oral contra a poliomielite foi atualizada para registrar que o esquema brasileiro passou a utilizar exclusivamente a vacina inativada injetável.



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Redação: Av. Historiador Rubens de Mendonça, nº 2000, 12º andar, sala 1206, Centro Empresarial Cuiabá

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