Mato Grosso consolidou sua posição de vanguarda na produção de grãos ao ultrapassar, neste final de semana de 15 de fevereiro, a marca de 51,01% da área de soja colhida. Os dados, divulgados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e repercutidos pelo canal Canal Rural, mostram que o estado mantém um ritmo superior à média nacional, que gira em torno de 17,4%. No entanto, o desempenho "dentro da porteira" contrasta com desafios estruturais crônicos. O escoamento da safra recorde enfrenta gargalos logísticos que vão desde a precariedade de rodovias em período de chuvas até o histórico déficit de armazenagem, que força o produtor a despachar o grão imediatamente, perdendo margem de lucro.
Analistas do setor apontam que a concentração da colheita em um curto espaço de tempo gera um "efeito funil". Com o grande volume de soja saindo simultaneamente das fazendas, a demanda por transporte dispara, elevando o preço dos fretes. A situação é agravada pelas condições de corredores logísticos estratégicos, como a BR-163 e diversas rodovias estaduais, onde o tráfego intenso de veículos pesados sob chuvas constantes resulta em atoleiros e lentidão, encarecendo o seguro da carga e comprometendo os prazos de entrega nos terminais ferroviários e portos.
O desafio da armazenagem e o modelo "just-in-time"
Um dos pontos centrais da crise logística, segundo relatórios da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), é a incapacidade do estado de estocar o que produz. Mato Grosso possui um déficit de armazenagem que obriga a comercialização rápida, muitas vezes em momentos de preços deprimidos pela alta oferta. Especialistas defendem que o incentivo à construção de armazéns nas próprias fazendas seria uma solução estratégica para permitir que o produtor gerencie melhor o tempo de venda, transformando o grão em um ativo financeiro mais estável.
O modelo logístico atual, altamente dependente do modal rodoviário, é visto como um limitador do crescimento do PIB estadual. Embora o Governo de Mato Grosso tenha intensificado investimentos em pavimentação, a saturação das vias federais e a lentidão na expansão da malha ferroviária — como os projetos da Ferronorte e da Ferrogrão — continuam sendo os principais obstáculos para a redução do chamado "Custo Brasil". A logística eficiente é apontada como a condição sine qua non para que o estado mantenha sua competitividade frente a produtores internacionais, como os Estados Unidos.
Perspectivas para a segunda safra
O avanço célere da colheita de soja é fundamental para garantir a "janela ideal" de plantio da segunda safra de milho e algodão. O Imea alerta que qualquer atraso no escoamento da soja pode comprometer o cronograma das culturas sucessoras, elevando o risco climático para o milho safrinha. A integração entre os modais de transporte e a modernização dos terminais de transbordo são as pautas urgentes que dominam as discussões entre as entidades representativas do agronegócio e o poder público.
A reportagem apurou que o setor produtivo aguarda sinalizações do Governo Federal sobre investimentos em infraestrutura previstos no orçamento de 2026. Enquanto os trilhos não avançam com a velocidade necessária, o produtor mato-grossense continua a realizar o feito de produzir em escala global com uma logística que ainda remete a décadas passadas, equilibrando-se entre a eficiência tecnológica do plantio e a precariedade do asfalto.





