A crise é visível: a população em situação de rua em Mato Grosso cresceu 19%, ultrapassando a marca de 4 mil pessoas, segundo dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). O crescimento foi registrado comparando os dados de 2023 e 2024.
Se no estado o crescimento foi de 19%, em Cuiabá ele foi ainda maior: 26%. Só na capital são mais de 1500 pessoas estão em situação de rua. Mas para o prefeito Abilio Brunini (PL), o problema tem nome e endereço: o Supremo Tribunal Federal (STF) e sua decisão que proíbe a remoção compulsória e o recolhimento de pertences.
Mais do que um gestor buscando soluções, Abilio age como um político em campanha permanente. Ao eleger o STF como antagonista, ele nacionaliza o debate municipal e acena para sua base bolsonarista, ávida por confrontos com o Judiciário. A narrativa é simples e eficaz nas redes: existe um desejo de "limpar" a cidade, no entanto, não há como prosseguir em razão do entendimento do Supremo.
"A decisão do ministro Alexandre de Moraes obriga a gente ao fornecimento de alimentos. A decisão do ministro Alexandre de Moraes obriga a gente manter a situação como está e não nos permite levar essas pessoas pra um local de tratamento. A não ser que essas pessoas busquem um local de tratamento, é diferente. Essas medidas a gente não consegue aprontar porque tem uma decisão do Alexandre de Moraes que impede a gente fazer remoção das pessoas. A legislação brasileira é flexível e uma decisão do Supremo reforça. Isso é muito ruim e acaba prejudicando a gente. Nós temos pessoas ocupando, por exemplo, um canteiro de rotatória, que é o caso da rodoviáriam e a gente não pode fazer a remoção da pessoa de lá. É, então assim, é muito delicado esse assunto", disse Abilio à imprensa.
Higienismo ou Ordem?
Nos bastidores da Prefeitura, a ordem é manter o tom de confronto. A estratégia visa blindar a gestão das críticas sobre a sujeira e insegurança na região central, transferindo a responsabilidade para a "legislação permissiva".
No entanto, especialistas e a Defensoria Pública alertam que a tática de Abilio esconde a falta de políticas públicas efetivas de acolhimento e saúde mental. Enquanto o prefeito discursa para o Instagram pedindo "poder de polícia" para a assistência social, milhares de pessoas permanecem no limbo, servindo de munição para uma guerra ideológica que não resolve o frio, a fome nem a insegurança de quem vive — e de quem transita — pelas ruas da capital.





