NOTICIÁRIO Quinta-feira, 13 de Agosto de 2026, 11:09 - A | A

Quinta-feira, 13 de Agosto de 2026, 11h:09 - A | A

RACHA NO PL

Caso Oi amplia conflito entre Wellington e Medeiros

Mauro Camargo

Ton Molina/Agência Senado

Wellington Fagundes

 

A Operação Heritage abriu uma nova frente de conflito dentro do PL de Mato Grosso. O senador Wellington Fagundes criticou a proposta anunciada pelo deputado federal José Medeiros para impedir operações policiais contra candidatos nos seis meses anteriores às eleições. Depois da repercussão negativa, Medeiros desistiu de apresentar o projeto.

O confronto ocorre no momento em que a direção estadual tenta conter prefeitos e outras lideranças do partido dispostas a apoiar a reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos), adversário de Wellington na disputa pelo Palácio Paiaguás.

Os dois episódios expõem dificuldades diferentes dentro da mesma legenda. Wellington e Medeiros voltaram a divergir publicamente sobre os efeitos políticos de uma investigação policial. Ao mesmo tempo, o presidente estadual do PL, Ananias Filho, ameaçou expulsar filiados que façam campanha para Pivetta.

Medeiros anunciou que pretendia apresentar um projeto para impedir operações policiais contra candidatos nos seis meses que antecedem as eleições. Segundo ele, as investigações poderiam ser realizadas antes desse período ou retomadas depois da votação.

“Eu penso que teve todo o tempo do mundo e terá todo o tempo do mundo para se fazer todas as operações possíveis antes do período eleitoral”, declarou.

O deputado referia-se à Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal em 6 de agosto para investigar suspeitas envolvendo o acordo de R$ 308 milhões firmado entre o Governo de Mato Grosso e a operadora Oi.

Medeiros considerou significativa a proximidade entre a operação e o calendário eleitoral. Embora tenha classificado Mauro Mendes (União Brasil) como adversário, afirmou que medidas policiais contra um candidato repercutem sobre todas as demais candidaturas da coligação.

“É uma operação no dia do registro das candidaturas. É muita coincidência para ser só coincidência”, disse.

A proposta, contudo, não chegou a ser protocolada na Câmara dos Deputados. Depois da reação provocada pela declaração, a assessoria de Medeiros informou que ele havia desistido de apresentá-la.

Durante o debate sobre o Caso Oi no Senado, Wellington criticou a ideia sem mencionar diretamente o nome do deputado.

“Quero dar uma satisfação para a população do meu Estado para não vir alguém amanhã dizer que é inoportuno fazer uma investigação em período eleitoral. Como se alguém que roubar durante a campanha não pudesse ser investigado. Isso é um absurdo”, afirmou.

O senador acrescentou que o cidadão que paga impostos e sofre os prejuízos da corrupção não aceita a suspensão de investigações por causa do calendário eleitoral. Também rejeitou a tentativa de atribuir a Heritage exclusivamente a uma articulação política contra Mauro Mendes.

Segundo Wellington, as suspeitas sobre o acordo da Oi e a movimentação dos recursos já haviam sido levadas à CPI do Crime Organizado pelo ex-governador Pedro Taques (PSB). O posicionamento coloca o senador em sentido contrário ao defendido por Medeiros: enquanto o deputado sugeriu uma restrição temporária às operações para evitar interferências na eleição, Wellington sustentou que o calendário eleitoral não pode proteger candidatos de investigações.

A divergência entre os dois antecede a Heritage. Em março, Medeiros questionou a candidatura de Wellington ao governo, defendeu que a eleição para o Senado fosse a prioridade do PL e manifestou resistência à aliança estadual com o MDB.

“O senador Wellington Fagundes não precisa ser candidato ao governo. Se o Senado é prioridade, nós temos que ser prioridade ao Senado”, afirmou na ocasião.

A direção nacional interveio para reduzir o conflito. Em junho, Valdemar Costa Neto reuniu Wellington, Medeiros e Ananias em Brasília e reafirmou apoio às duas candidaturas. A convenção confirmou Wellington ao governo e Medeiros ao Senado, mas não eliminou as diferenças.

Além da disputa entre seus candidatos, o PL enfrenta uma dissidência entre prefeitos e lideranças municipais. Ananias afirmou que os filiados poderão permanecer em silêncio ou pedir afastamento, mas não serão autorizados a fazer campanha para Pivetta.

“Ou pede afastamento ou a gente tira. Quem ficar no PL tem que ficar, no mínimo, quieto”, declarou.

Segundo o dirigente, o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, passou a atuar como interlocutor junto aos prefeitos insatisfeitos, numa tentativa de evitar expulsões e reduzir o desgaste interno. A direção não pretende obrigar os filiados a apoiar Janaina Riva, candidata do MDB ao Senado. A exigência de fidelidade concentra-se nas candidaturas do próprio PL.

O prefeito de Primavera do Leste, Sérgio Machnic, já declarou apoio a Pivetta. Outras lideranças também são apontadas como próximas do governador, embora nem todas tenham formalizado posição.

O deputado estadual Diego Guimarães (Republicanos) estima que entre 70% e 80% dos prefeitos do PL poderão migrar para o palanque governista. Trata-se de uma projeção feita por um adversário de Wellington, não de levantamento confirmado com os gestores municipais.

O PL chega à campanha com uma chapa majoritária definida, mas ainda sem unidade política. Wellington precisa preservar sua candidatura ao governo, sustentar o projeto de Medeiros ao Senado, administrar a aliança com o MDB e impedir que parte da base municipal migre para Pivetta.

A Heritage adicionou uma nova contradição a esse quadro. Medeiros propôs restringir operações policiais no período eleitoral; Wellington considerou a ideia incompatível com o dever de investigar suspeitas de corrupção. O recuo do deputado encerrou a possibilidade imediata do projeto, mas não resolveu o conflito.

Nota de Transparência

A reportagem foi produzida com base nas declarações públicas de Wellington Fagundes no Senado, nas manifestações de José Medeiros à imprensa e em entrevista de Ananias Filho.

O projeto anunciado por Medeiros não chegou a ser protocolado na Câmara. A estimativa de adesão de 70% a 80% dos prefeitos do PL a Pivetta foi atribuída a Diego Guimarães e não apresentada como levantamento confirmado.



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