O Caso Oi chegou nesta quarta-feira (12) à tribuna do Senado e reuniu os três representantes de Mato Grosso na defesa do aprofundamento das investigações. Jayme Campos (União Brasil) fez o pronunciamento principal. Wellington Fagundes (PL) e Carlos Fávaro (PSD) manifestaram-se em apartes.
Os três senadores defenderam o esclarecimento das suspeitas investigadas pela Polícia Federal na Operação Heritage, que apura o destino de R$ 308 milhões pagos pelo Governo de Mato Grosso em um acordo judicial com a operadora Oi. Também ressaltaram que os investigados devem ter assegurados o contraditório e a ampla defesa.
A convergência não representa uma aliança eleitoral entre os parlamentares, mas amplia o alcance institucional e político do caso. Jayme apoia a candidatura de Wellington ao governo e Janaina Riva (MDB) ao Senado. Fávaro disputa a reeleição por uma coligação adversária, que tem Natasha Slhessarenko como candidata ao governo.
Ao ser levado ao Senado pelos três representantes do Estado, o Caso Oi deixa de ser apenas um confronto entre grupos políticos locais. Passa a integrar formalmente o debate do Congresso e amplia a pressão sobre o ex-governador Mauro Mendes (União Brasil), candidato ao Senado, e sobre o governador Otaviano Pivetta (Republicanos), candidato à reeleição.
Jayme Pede Perdão por apoiar Mauro
O discurso mais contundente foi feito por Jayme Campos, que pediu perdão aos mato-grossenses por ter apoiado Mauro Mendes na eleição de 2018.
Jayme afirmou ter apresentado Mauro ao eleitorado acreditando que ele seria capaz de corresponder à confiança recebida. O senador disse que o ex-governador vinha de derrotas eleitorais e recebeu de seu grupo político a oportunidade de chegar ao governo.
“Eu quero pedir ao povo de Mato Grosso minhas desculpas, perdão por ter saído em 2018 puxando pelas mãos esse cidadão”, declarou.
A manifestação transfere para a tribuna do Senado o rompimento político consolidado durante a convenção do União Brasil. Jayme pretendia disputar o governo, mas foi derrotado por 30 votos a 19 na votação em que o partido decidiu apoiar a reeleição de Pivetta. A condução do processo foi liderada por Mauro Mendes, presidente estadual da legenda.
Depois da convenção, Jayme declarou apoio a Wellington e compromisso “incondicional” com a candidatura de Janaina Riva ao Senado.
Recursos poderiam financiar políticas públicas
Ao tratar da Operação Heritage, Jayme comparou os R$ 308 milhões investigados com investimentos que poderiam ter sido realizados em saúde, educação e habitação.
“Esse valor seria suficiente para financiar a implantação de 4 mil UTIs. Imaginem o impacto disso na saúde pública de Mato Grosso. Quantas vidas poderiam ser salvas? Quantas famílias poderiam ter um atendimento digno?”, questionou.
O senador acrescentou que o montante também poderia ser utilizado na construção de moradias populares, creches e escolas.
Jayme afirmou que, caso seja comprovado o desvio de dinheiro público, os responsáveis devem responder pelos atos praticados. Também cumprimentou o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, pela decisão que autorizou as medidas requeridas na investigação.
A existência de uma investigação e a adoção de medidas cautelares, porém, não representam reconhecimento de culpa. Os fatos ainda estão sob apuração, e os investigados não foram condenados. Senador amplia acusações
Além do Caso Oi, Jayme pediu uma auditoria na Secretaria de Estado de Saúde e afirmou que mais de R$ 1,5 bilhão teriam sido desviados da pasta.
A declaração não foi acompanhada, durante o discurso, da apresentação de auditoria, decisão judicial ou relatório de órgão de controle que comprovasse o valor mencionado. A acusação feita pelo senador é baseada na ainda em andamento CPI da Saúde, presidida pelo deputado estadual Wilson Santos (PSD).
Jayme também cobrou apuração sobre os empréstimos consignados de servidores estaduais e afirmou que Mato Grosso teria se transformado em um “balcão de negócios”.
O senador mencionou ainda informações segundo as quais recursos relacionados ao acordo da Oi teriam chegado a empresas ligadas ao ex-secretário-chefe da Casa Civil Mauro Carvalho e a um empreendimento do qual o governador Otaviano Pivetta seria sócio, no Piauí.
Essa acusação exige comprovação documental. As medidas de bloqueio adotadas durante uma investigação são cautelares e não permitem concluir, por si, que determinada pessoa ou empresa tenha recebido dinheiro desviado.
Wellington rejeita tese eleitoral
Em aparte, Wellington Fagundes apoiou a cobrança feita por Jayme e rejeitou a tentativa de atribuir a Operação Heritage a uma articulação exclusivamente eleitoral.
O senador lembrou que informações sobre o acordo da Oi e a movimentação dos recursos por meio de fundos relacionados ao Banco Master já haviam sido encaminhadas à CPI do Crime Organizado pelo ex-governador Pedro Taques (PSB).
Taques, candidato ao Senado, foi o autor da notícia-crime que deu origem à investigação. A representação foi encaminhada à Procuradoria-Geral da República e posteriormente submetida ao STF.
Ao recuperar a cronologia, Wellington procurou demonstrar que as suspeitas antecederam a etapa atual da campanha eleitoral. O posicionamento confronta a versão de Mauro Mendes, que atribuiu a operação a uma “armação” de adversários.
Wellington também direcionou a cobrança a Pivetta. O governador ocupou a vice durante a administração de Mauro e assumiu o Paiaguás depois da desincompatibilização do titular para disputar o Senado.
A proximidade administrativa não comprova participação de Pivetta nos fatos investigados. Politicamente, entretanto, torna inevitável o questionamento sobre o que o governador sabia a respeito do acordo, de sua execução e do destino dos recursos.
Fávaro defende investigação e direito de defesa
Carlos Fávaro também manifestou apoio ao esclarecimento do caso. Em seu aparte, defendeu que as investigações prossigam sem interferência política, mas ressaltou a necessidade de preservar o direito de defesa.
A posição é semelhante à adotada pelo senador desde a deflagração da Heritage. Fávaro sustenta que a Polícia Federal é uma instituição de Estado e que seus investigados devem responder no processo, com acesso aos autos e garantia do contraditório.
Ao mesmo tempo, afirmou que nada deve permanecer encoberto e que a população de Mato Grosso precisa receber explicações sobre o destino dos recursos públicos.
A participação de Fávaro tem significado político próprio. Candidato à reeleição, ele disputa uma das duas vagas ao Senado com Mauro Mendes, Janaina Riva, José Medeiros (PL), Pedro Taques e outros concorrentes.
Convergência amplia pressão
Os três senadores chegaram ao debate por caminhos diferentes.
Jayme transformou a Heritage em fundamento para um rompimento público e definitivo com Mauro Mendes. Wellington utilizou o caso para pressionar Pivetta e questionar a continuidade administrativa representada pelo atual governador. Fávaro defendeu a legitimidade da atuação da Polícia Federal e cobrou transparência na investigação.
A convergência está restrita à necessidade de apuração. Não elimina as diferenças eleitorais entre os parlamentares nem autoriza falar na formação de um novo bloco político.
Seu efeito imediato, contudo, é claro: o Caso Oi deixa de ser uma acusação sustentada apenas por adversários isolados e passa a ser objeto de cobrança de toda a bancada de Mato Grosso no Senado.
A partir de agora, Mauro e Pivetta terão de responder não apenas sobre a legalidade formal do acordo firmado com a Oi. Precisarão explicar como a operação foi estruturada, quais controles foram adotados e qual foi o destino final dos R$ 308 milhões.
Operação investiga acordo
A Operação Heritage foi deflagrada pela Polícia Federal em 6 de agosto, por determinação do ministro Flávio Dino.
A investigação apura se o acordo firmado entre o Governo de Mato Grosso e a Oi foi utilizado para permitir o desvio de recursos públicos e a lavagem de dinheiro por meio de fundos de investimentos e empresas privadas.
A decisão autorizou buscas e apreensões, quebras de sigilos e bloqueio de bens. Pedidos de afastamento de funções públicas não foram acolhidos.
Mauro Mendes nega irregularidades e afirma que o acordo foi legal, vantajoso para Mato Grosso e homologado judicialmente. Também atribui a investigação a interesses eleitorais.
Desde a operação, Francisco Lopes pediu exoneração do comando da Procuradoria-Geral do Estado; Fábio Garcia deixou a condição de candidato a vice-governador; e Mauro Carvalho saiu da Casa Civil. Gisela Simona passou a integrar a chapa de Pivetta, e Adjaime Ramos assumiu a Casa Civil.
Nota de Transparência
Esta reportagem foi produzida a partir do registro taquigráfico da sessão plenária do Senado Federal de 12 de agosto de 2026, fonte primária das manifestações dos senadores.
As afirmações sobre supostos desvios na Saúde e sobre eventual destinação de recursos a empresas ligadas a agentes políticos foram mantidas como declarações atribuídas a Jayme Campos. Até o fechamento, não foi localizado documento público suficiente para apresentá-las como fatos comprovados.






