Carlos Fávaro começou a campanha à reeleição neste domingo (16) exatamente onde pretende deixar claro que está politicamente: ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Pela manhã, estava no Estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, no lançamento da campanha de Lula. Horas depois, desembarcou em Cuiabá para abrir sua própria campanha ao Senado e dividir o palanque com Natasha Slhessarenko, candidata ao Governo de Mato Grosso.
Dois atos separados por mais de 1.500 quilômetros e unidos pela mesma estratégia. Fávaro não pretende esconder Lula em Mato Grosso. Natasha também não.
A campanha que começou neste domingo procura transformar a relação com o governo federal, frequentemente considerada uma dificuldade eleitoral num Estado de forte maioria conservadora, em argumento para pedir votos.
O local escolhido em Cuiabá acrescentou outro componente à mensagem. Em vez de um hotel, centro de convenções ou espaço tradicional para eventos políticos, a coligação Mato Grosso Para Todos foi para o Contorno Leste.
Fávaro explicou a escolha afirmando que a política precisa chegar justamente aos lugares onde faltam serviços públicos. Citou creches, praças e transporte e disse que sua campanha pretende falar com quem considera não ter sido ouvido pelo poder público.
O discurso ajuda a definir o território político que a coligação tentará ocupar.
Se Otaviano Pivetta começou a campanha neste domingo em Lucas do Rio Verde, utilizando sua história administrativa como credencial, e Wellington Fagundes largou amparado pela liderança nas pesquisas e pela força do bolsonarismo, Fávaro e Natasha escolheram periferia, políticas sociais e associação direta com Lula.
São três maneiras bastante diferentes de começar a mesma eleição.
Natasha precisa transformar unidade em votos
Embora o ato tenha sido organizado para lançar a reeleição de Fávaro, serviu também como lançamento político da candidatura de Natasha.
A médica chegou ao Contorno Leste depois de iniciar o domingo com missa e visitas a feiras de Cuiabá. Sua campanha informa que ela percorreu mais de 90 municípios durante a pré-campanha, movimento destinado justamente a enfrentar uma de suas principais dificuldades: transformar reconhecimento.
No palanque, Natasha procurou estabelecer uma oposição programática ao atual governo.
Falou em escolas, saúde e cuidado com as pessoas. Questionou qual modelo de Estado o eleitor pretende escolher e afirmou que sua candidatura oferecerá um governo voltado para as políticas sociais.
Há também uma mensagem histórica sendo construída.
A coligação apresenta Natasha como candidata com possibilidade de se tornar a primeira mulher a governar Mato Grosso. A afirmação está correta como objetivo eleitoral: o Estado nunca elegeu uma mulher para o comando do Executivo.
Mas a novidade mais relevante de sua candidatura talvez não esteja no gênero.
Está na coalizão.
Depois de anos de fragmentação, partidos do centro e da esquerda conseguiram construir uma candidatura única ao Governo em torno de Natasha e concentrar em Fávaro sua principal aposta para uma das duas vagas ao Senado.
O próprio senador tratou dessa construção no discurso e atribuiu caráter histórico à união de oito legendas.
A amplitude formal, entretanto, precisa agora ser convertida em estrutura eleitoral.
Esse é o primeiro grande teste de Natasha.
Uma coligação extensa oferece tempo, candidatos proporcionais, militância, prefeitos, dirigentes e capilaridade. Mas oito siglas numa fotografia não significam automaticamente oito eleitorados somados na urna.
A candidata precisa transformar unidade partidária em identidade política. E fazê-lo rapidamente.
Fávaro escolheu não esconder Lula
A situação do senador é diferente.
Fávaro já possui mandato, estrutura política, relações municipais e uma passagem recente por um dos ministérios mais importantes para Mato Grosso.
Sua campanha pretende transformar essa passagem pelo Ministério da Agricultura em credencial.
No Contorno Leste, apresentou um balanço do mandato e da atuação no governo federal. Citou recursos destinados aos 142 municípios, quase 400 veículos para a saúde e a abertura de 555 mercados para produtos brasileiros durante sua gestão no Ministério da Agricultura.
A abertura de centenas de mercados internacionais tornou-se uma das principais vitrines da gestão de Fávaro na pasta. A atribuição de resultados específicos ao ministro, entretanto, precisa considerar que abertura comercial é resultado de negociações institucionais envolvendo diferentes órgãos do governo e autoridades sanitárias dos países importadores.
Politicamente, o argumento é outro.
Fávaro pretende apresentar-se como ponte entre Mato Grosso e Brasília.
Por isso sua presença em São Bernardo do Campo, poucas horas antes do lançamento em Cuiabá, tem importância maior que a simples participação num ato partidário.
O senador estava no palco de Lula ao lado de ministros e lideranças nacionais. O evento ocorreu no estádio associado às grandes greves metalúrgicas e ao início da trajetória política do presidente. Lula utilizou justamente essa biografia como elemento central da abertura de sua campanha.
Fávaro fez questão de participar. Depois, voltou para Mato Grosso. Não há tentativa de criar distância. Ao contrário.
O senador afirmou que esteve ao lado de Lula durante o governo e permanecerá ao lado dele na eleição. Em outra manifestação neste domingo, disse que pretende defender o legado do presidente.
Essa escolha possui risco eleitoral evidente.
Mato Grosso deu ampla vantagem a Jair Bolsonaro nas duas últimas eleições presidenciais. O bolsonarismo continua exercendo forte influência sobre parcela relevante do eleitorado estadual.
Fávaro sabe disso.
Sua aposta parece ser que a passagem pelo Ministério da Agricultura, a interlocução com produtores e as entregas federais ao Estado possam diminuir a resistência ideológica a seu alinhamento nacional.
Em vez de negar Lula, tentará explicar o que considera que Lula entregou a Mato Grosso.
Uma eleição em dois planos
Esse movimento também ajuda Natasha.
A candidatura ao Governo começa numa situação distinta das duas campanhas que aparecem à frente nas pesquisas.
Wellington possui forte identificação com o eleitor conservador e tenta consolidar a associação com o bolsonarismo.
Pivetta possui a máquina estadual, extensa base municipal e o legado administrativo do grupo de Mauro Mendes.
Natasha precisa criar um terceiro caminho reconhecível.
O lançamento deste domingo mostra onde pretende encontrá-lo: políticas sociais, saúde, presença federal e oposição ao atual modelo estadual.
Sua formação médica oferece um elemento adicional para esse discurso.
No Contorno Leste, Natasha afirmou que pretende governar para “cuidar de gente” e colocou saúde e educação no centro da fala.
O desafio será evitar que a candidatura fique confinada ao eleitorado tradicional de Lula.
Para chegar competitiva à reta final, Natasha precisará conversar também com eleitores que aprovam políticas federais, mas não se identificam necessariamente com a esquerda; com mulheres; servidores; população periférica; e segmentos do setor produtivo que mantêm relação institucional com Fávaro.
É aí que a composição da chapa ganha importância.
Fávaro montou suas suplências procurando transmitir amplitude. Alexandre Schenkel possui trajetória diretamente ligada ao agronegócio e já presidiu entidades do setor algodoeiro. Carmen Machado vem do serviço público e da área de saúde coletiva.
A mensagem apresentada no ato foi de representação simultânea do produtor, do trabalhador, da mulher e do servidor.
É construção eleitoral.
A campanha terá agora de demonstrar se essa diversidade também existe fora do palanque.
O teste de Fávaro
Para Fávaro, a disputa possui outra peculiaridade.
Mato Grosso elegerá dois senadores.
Isso permite ao candidato buscar votos de eleitores que eventualmente escolherão adversários de seu campo político para a primeira opção.
O senador não precisa convencer todo eleitor conservador a votar em Lula ou Natasha.
Precisa convencê-lo de que pode ser um segundo voto útil para Mato Grosso.
Sua passagem pelo Ministério da Agricultura será fundamental nessa tentativa.
Fávaro procurará dizer ao agronegócio que participou de um governo petista sem deixar de representá-lo. Aos eleitores de Lula, apresentará lealdade. Aos prefeitos, entregas. À periferia, políticas públicas federais.
São públicos diferentes.
E nem sempre convergentes.
A campanha começou tentando colocá-los sob o mesmo teto.
O campo de Lula finalmente tem uma chapa
Talvez essa seja a principal informação política deixada pelo domingo.
Durante boa parte da pré-campanha, o debate sobre o Governo de Mato Grosso ficou concentrado na reorganização da direita, nas dificuldades de Wellington para fechar sua chapa, na sucessão de Mauro Mendes e, mais recentemente, nos efeitos da Operação Heritage sobre Pivetta.
Natasha aparecia num plano secundário dessa disputa.
A partir deste domingo, o campo de Lula possui oficialmente uma chapa na rua.
Possui candidata ao Governo.
Possui candidato competitivo ao Senado.
Possui uma frente partidária ampla.
E decidiu não esconder o presidente da República.
Fávaro saiu de Cuiabá, foi ao berço político de Lula e voltou no mesmo dia para lançar sua campanha na periferia da capital mato-grossense.
O roteiro contém uma mensagem.
Ele pretende disputar a eleição como aliado de Lula.
Natasha também.
Agora começa a parte mais difícil.
Em um Estado no qual o bolsonarismo continua muito forte, ambos terão de demonstrar que a proximidade com Brasília pode valer mais, para uma parcela suficiente do eleitorado, do que a resistência ideológica ao presidente.
E Natasha terá um desafio adicional: convencer Mato Grosso de que a eleição para governador não está restrita a Wellington Fagundes e Otaviano Pivetta.
O ato do Contorno Leste colocou sua candidatura formalmente na disputa.
Transformá-la numa terceira força capaz de ameaçar os dois primeiros é uma tarefa que começa agora.
Leitura política - A sequência São Bernardo–Cuiabá elimina uma dúvida sobre a estratégia de Carlos Fávaro. O senador não fará uma campanha de afastamento calculado de Lula para adaptar-se ao perfil conservador de Mato Grosso.
Fará o contrário.
Tentará converter acesso ao governo federal, passagem pelo Ministério da Agricultura, recursos destinados aos municípios e relação com o presidente em ativos eleitorais.
Para Natasha Slhessarenko, essa definição é igualmente importante. Sua candidatura ganha um campo político organizado e uma referência nacional inequívoca, mas herda também a rejeição que Lula enfrenta em parcelas do eleitorado estadual.
O Contorno Leste acrescenta a tentativa de dar conteúdo local a essa aliança. A campanha quer disputar periferia, saúde, educação e serviços públicos, contrapondo esse programa ao modelo do atual governo.
A fotografia deste domingo, portanto, não mostra apenas Fávaro lançando a reeleição.
Mostra a entrada organizada do campo governista federal na eleição de Mato Grosso.
A questão que as próximas semanas responderão é qual o tamanho eleitoral desse campo.
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Nota de Transparência
Esta reportagem foi produzida a partir das informações fornecidas pela assessoria da campanha e confrontadas com registros jornalísticos publicados neste domingo (16) sobre os atos realizados em São Bernardo do Campo e Cuiabá. A presença de Carlos Fávaro no lançamento da candidatura de Lula e a realização do ato da coligação Mato Grosso Para Todos no Contorno Leste foram confirmadas por diferentes fontes.
Dados apresentados por Fávaro sobre entregas do mandato, investimentos federais, habitação, veículos e abertura de mercados são declarações da campanha e, quando utilizados na reportagem, são atribuídos ao candidato ou contextualizados. A abertura de mercados externos, embora associada politicamente à passagem de Fávaro pelo Ministério da Agricultura, decorre de negociações institucionais que envolvem
A caracterização das estratégias de Fávaro e Natasha e dos desafios eleitorais de ambos constitui análise editorial do Nossa República baseada nos discursos, agendas e composição política apresentados no primeiro dia oficial da campanha.






