Diante do agravamento do cenário pandêmico em Cuiabá, passa a vigorar nesta segunda-feira (14) decreto municipal 8.353, de 12 de março de 2021, que suspende "agendamentos, atendimentos ambulatoriais e procedimentos médicos, todos de caráter eletivo, nas unidades de saúde municipais e particulares". Desde o dia 2 de março já havia restrição na rede pública para estes atendimentos. O que muda é que a medida agora abarca também a iniciativa privada. Agora apenas urgências e emergências serão atendidas. A medida terá validade até 21 de março.
A medida não alcança procedimentos eletivos considerados essenciais pelo alto risco de provocar piora do quadro clínico, nas especialidades de cardiologia, urologia, oftalmologia , oncologia e nefrologia, além das cirurgias consideradas inadiáveis pós-traumáticas. Grávidas de alto risco também continuam fazendo o acompanhamento pré-natal, sem prejuízo.
A superlotação da rede de saúde deu sua demonstração de força neste sábado, quando o Complexo Hospitalar de Cuiabá, anunciou o fechamento do seu pronto atendimento até esta segunda-feira (15) para poder se reorganizar, em função da alta demanda de pacientes com suspeita de infecção pela Covid-19.
Outra medida tomada pela prefeitura de Cuiabá em decorrência do grande número de casos de infectados pela Covid foi transformar o hospital Municipal São Benedito em uma unidade exclusiva para pacientes contaminados pelo novo vírus. Também houve reorganização da rede municipal, estabelecendo quais policlínicas e UPAS seriam destinadas a este tipo de atendimento. São elas a UPA do Verdão, a do Pascoal Ramos e a Policlínica do Verdão. Ao separar os atendimentos, a intenção é reduzir o risco de infecção para pacientes que necessitam ser atendidos por outros casos de urgência e emergência.
A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) notificou, até a tarde deste sábado (13), 271.765 casos confirmados da Covid-19 em Mato Grosso, sendo registrados 6.330 óbitos. Foram notificadas 553 novas confirmações de casos de coronavírus no Estado, sendo 47 novos mortos em 24 horas.
Entre casos confirmados, suspeitos e descartados para a Covid-19, há 469 internações em UTIs públicas e 480 enfermarias públicas ocupadas. Isto é, a taxa de ocupação está em 95,7% para UTIs adulto e em 60% para enfermarias adulto.
O avanço desenfreado da doença também trouxe outro fato inédito. Os cemitérios de Cuiabá registram filas de carros de funerária para enterrar aqueles que morreram vítimas da Covid-19.
O médico Werley Peres, que atende tanto na rede pública como na privada e já foi secretário municipal de Saúde de Cuiabá, fez um vídeo neste sábado no qual relata a situação vivida em Cuiabá e Várzea Grande. Na fala do profissional, ele compara o cenário com o de uma "guerra".
"A situação da rede pública e privada é um caso grave, parece cenário de guerra. A situação é extremamente grave e não tem outra solução senão fechar tudo para que dê certo alívio dentro das unidades de saúde para conseguirmos vencer as demandas que estão chegando", disse ao defender lockdown de pelo menos 15 dias nas duas maiores cidades do estado.
Para Peres, embora a medida pareça não resolver e seja em certo ponto impopular, será necessária porque o sistema de saúde não terá capacidade de atender a todos que necessitarem, por mais que sejam feitas ampliações tanto na rede pública como privada.
"Na rede privada não está diferente. Abrem mais UTIs, mas vai chegar um ponto que não tem onde por mais pacientes. Não acho que haja outra solução neste momento. É preciso segurar a população duas semanas em Várzea Grande e Cuiabá. Vamos esperar começar a morrer na rua não porque não consegue entrar na unidade de saúde? A situação é grave. Não podemos ignorar o fato. Precisamos de um alívio para o sistema que colapsou e colapsou muito".
Reação do CRM
Diante da notícia do decreto municipal, o CRM se posicionou. "Sabemos da necessidade de conter o avanço do novo coronavírus, que continua pressionando a rede de atendimento à saúde, com número crescente de internações, contudo, na medida em que o Decreto Municipal permite o funcionamento de atividades econômicas do comércio em geral, varejista e atacadista, além das atividades de prestação de serviços em geral, a decisão de restringir atendimentos médicos de caráter eletivo se mostra completamente irrazoável".
A nota continua informando que "caso a publicação do ato normativo se confirme, o CRM-MT envidará esforços para que o Poder Executivo Municipal reveja sua decisão no âmbito administrativo e, sendo necessário, acionará o Judiciário para que o funcionamento dos serviços médicos e estabelecimentos assistenciais de saúde possam ser permitidos dentro do cumprimento de normas sanitárias de segurança".
A assessoria da Prefeitura de Cuiabá já anunciou que o decreto está sendo refeito.






