O debate sobre a revisão geral anual (RGA) de 5,4% — anunciada pelo governo como reposição inflacionária — abriu espaço para uma discussão muito maior: o drama silencioso do endividamento dos servidores de Mato Grosso. Em entrevista franca, direta e sem concessões, o deputado Wilson Santos afirmou que a RGA, apresentada como vitória, “foi uma derrota histórica dos servidores”, e que o Estado acumulou, ao longo de uma década, uma série de ações e omissões que agravaram a situação financeira de milhares de famílias.
Wilson resgatou a CPI dos Consignados, instaurada ainda em 2018, que diagnosticou um superendividamento generalizado e propôs um projeto de lei para disciplinar empréstimos. A Assembleia aprovou a proposta por unanimidade. O governo Mauro Mendes vetou. O veto caiu. A lei nasceu — e durou cem dias, até ser derrubada por Ação Direta de Inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal. “O Estado abriu a porteira para mais de trinta instituições financeiras operarem livremente consignados. O Procon diagnosticou a conivência completa do governo e de agentes públicos”, afirmou o deputado. Segundo ele, essa combinação — somada ao não pagamento das RGAs de 2019, 2020 e 2021 — formou a base de um passivo que hoje soma 19,52%, ainda sem solução definitiva.
A crítica de Wilson se estendeu ao argumento do governo, segundo o qual pagar o passivo exigiria cortar investimentos. Para ele, investimento também se mede pelo cuidado com quem executa políticas públicas. O deputado citou o parecer do Tribunal de Contas do Estado, que apontou R$ 11 bilhões em caixa ao final de 2024, e lembrou o custo humano da década sem reposição salarial: separações familiares, servidores empurrados à insolvência, relatos de depressão e até suicídios. “A RGA de 5,40 é uma ninharia para quem passou dez anos sacrificando o próprio patrimônio”, disse.
A entrevista avançou para acusações mais duras. Wilson Santos classificou o esquema dos consignados como “crime”, afirmou que houve “conivência” de agentes públicos e que determinadas instituições financeiras lucraram de forma abusiva. O parlamentar prometeu insistir no tema por meio de uma Câmara Setorial Temática, que deve convocar ex-servidores do Procon, secretários e representantes de bancos. “Não vamos deixar esse assunto morrer”, afirmou. Segundo ele, há casos semelhantes julgados em outros estados — Goiás, Amapá, Minas Gerais, Rio Grande do Sul — com decisões determinando devolução de recursos e indenizações.
Ao falar sobre o sistema financeiro, Wilson ampliou o foco para além de Mato Grosso. Criticou a força das instituições bancárias, a influência econômica sobre a política e a maneira como decisões estratégicas do país respondem a interesses de grupos restritos. “Quem manda no Brasil é quem controla o dinheiro”, afirmou. Para o deputado, o orçamento federal, com quase metade destinado ao pagamento da dívida pública, escancara a desigualdade de representação.
O tema dos consignados se ligou a outra frente sensível: a Operação Espelho, investigação sobre contratos na saúde. Wilson entregou documentos ao governador e tentou instaurar CPI, que hoje tem sete assinaturas — falta uma para avançar. Ele não revelou os nomes, por pedido dos próprios parlamentares. Segundo o deputado, empresas investigadas continuariam vendendo ao Estado mesmo sob questionamentos, especialmente durante a pandemia, quando a flexibilização de compras emergenciais teria aberto brechas para desvios.
A conversa ganhou novo rumo ao tratar da Energisa, após a Assembleia Legislativa defender nova licitação para distribuição de energia no estado. A ANEEL discordou e recomendou renovação por mais 30 anos. O deputado revelou negociações com o Ministério de Minas e Energia e apresentou um conjunto de exigências para a eventual renovação: investimentos bilionários, universalização do sistema trifásico, agências físicas e postos de atendimento em locais estratégicos. “O contrato de 1997 não amarrou nada. Agora queremos amarras”, disse.
Outro ponto crítico foi a situação dos pescadores profissionais. Wilson afirmou que duas leis estaduais inviabilizaram a atividade ao restringir o transporte das principais espécies comerciais. “Acabou com a pesca profissional”, resumiu. O deputado afirmou que o governo federal ainda não pagou o seguro-defeso referente ao atual período de piracema e cobrou celeridade do INSS.
A entrevista terminou com análise do cenário político. Wilson confirmou sua candidatura à reeleição e falou da dinâmica histórica do poder em Mato Grosso, destacando o papel central do agronegócio nas vitórias desde 2002. Para ele, a matriz econômica continuará influenciando qualquer disputa majoritária. Ainda assim, defendeu que o estado precisa discutir industrialização, agregar valor às exportações e diversificar sua pauta de desenvolvimento.
No fecho, o deputado deixou clara sua leitura sobre a próxima eleição: o agronegócio seguirá decisivo, mas há temas urgentes que pressionam o debate público — o endividamento dos servidores, a qualidade da energia, o impacto das leis sobre pesca, a lisura dos contratos na saúde. São assuntos que, segundo ele, não podem ser varridos para debaixo do tapete. “O servidor não pode se contentar com migalhas depois de uma década de sacrifício”, afirmou, antes de concluir que, no Mato Grosso de hoje, não há espaço para ilusões: “O tabuleiro está exposto. Agora é preciso coragem para mexer as peças certas.”
As informações são do Jornal da Cultura, da Rádio Cultura FM 90.7, e foram concedidas pelo deputado estadual Wilson Santos (PSD) em entrevista aos jornalistas Antero Paes de Barros e Michely Figueiredo.





