A cena ocorreu em abril de 2024. Jair Bolsonaro estava em Mato Grosso quando um grupo de apoiadores se reuniu ao seu redor para uma oração. Aos pés do ex-presidente, participantes se ajoelharam e fizeram uma unção com óleo. Entre eles estava o empresário Reinaldo Morais, conhecido como “Rei do Porco”. O vídeo ganhou as redes sociais.
Dois anos depois, a imagem adquiriu significado eleitoral inesperado. Reinaldo é agora o candidato a vice-governador na chapa de Wellington Fagundes.
A cena de 2024 foi descrita por diferentes publicações como uma unção dos pés e tornozelos de Bolsonaro. O gesto chegou a ser associado nas redes ao simbolismo cristão do lava-pés, embora tecnicamente seja mais preciso descrevê-lo como unção com óleo.
Mais que uma curiosidade religiosa, a imagem ajuda a explicar por que Reinaldo acabou escolhido depois de uma das mais conturbadas negociações para vice desta eleição.
Wellington chegou até ele depois de passar por Marcelo Maluf, do Novo, e Alencar Farina, do PL. Maluf chegou a ser apresentado como solução para a vice, mas acabou substituído. A decisão provocou reação pública do empresário e desconforto no Novo.
Wellington então optou por Alencar Farina, produzindo uma chapa pura do PL. Farina também saiu. Na sequência, Wellington confirmou Reinaldo. O “Rei do Porco” tornou-se, assim, o terceiro nome escolhido para a posição.
A novela parece encerrada. Por enquanto.
Agro, Novo e bolsonarismo
A chegada de Reinaldo não foi apenas uma decisão estadual. O empresário relatou ter recebido telefonema de Michelle Bolsonaro e atribuiu à ex-primeira-dama participação direta na construção de sua candidatura.
O objetivo político é relativamente transparente: aproximar Wellington de uma parcela do bolsonarismo que recebeu com resistência sua aliança com o MDB e a candidatura de Janaina Riva ao Senado.
Reinaldo reúne características que os nomes anteriores não conseguiam combinar da mesma forma. É filiado ao Novo. É empresário do agronegócio. Possui forte identificação religiosa. E mantém relação pública antiga com Bolsonaro.
A vice deixa, portanto, de ser apenas uma composição partidária. Passa a funcionar também como certificado ideológico. O episódio da unção sintetiza essa relação de forma que nenhuma peça de propaganda conseguiria fabricar posteriormente.
A cena não surgiu da necessidade eleitoral de Wellington em 2026. É anterior. Durante a oração de 2024, óleo foi utilizado na bênção dos pés de Bolsonaro. O vídeo voltou a circular posteriormente fora de contexto e precisou ser checado quando usuários passaram a relacioná-lo equivocadamente a acontecimentos judiciais posteriores envolvendo o ex-presidente.
Esse detalhe é relevante. A gravação mostra uma manifestação religiosa e política anterior à atual eleição. Por isso ajuda a compreender a identidade pública de Reinaldo.
O homem por trás do apelido
Reinaldo construiu projeção empresarial ligado à suinocultura e ao agronegócio e já havia experimentado as urnas. Em 2020, disputou a eleição suplementar ao Senado por Mato Grosso e terminou distante dos primeiros colocados. Naquela campanha declarou patrimônio elevado à Justiça Eleitoral, tornando-se um dos candidatos de maior patrimônio no pleito.
A entrada na chapa majoritária coloca novamente sua trajetória empresarial, patrimônio, empresas e relações políticas sob escrutínio público — procedimento natural para qualquer candidato a vice-governador.
Eleitoralmente, entretanto, o patrimônio político mais importante pode ser sua capacidade de conversar com um eleitor conservador do agro que vê Bolsonaro não apenas como liderança partidária, mas como referência de identidade.
É justamente esse eleitor que Wellington não pode perder. A candidatura do senador possui uma contradição desde a montagem da coligação. Para ampliar a aliança, aproximou-se do MDB.
Para vencer em Mato Grosso, precisa manter mobilizada uma base fortemente bolsonarista. A entrada de Janaina Riva e outras negociações provocaram resistências dentro do próprio PL. Reinaldo funciona como ponte entre esses mundos.
Sua indicação recebeu elogios até de lideranças que permanecem afastadas da campanha estadual de Wellington. Isso não significa que a direita esteja pacificada. Mas a chapa ganhou um personagem com credenciais bolsonaristas difíceis de contestar.
A solução também não apaga o caminho percorrido. Wellington precisou passar por Maluf, Farina e Reinaldo até chegar à configuração definitiva. A sequência fornece munição a Pivetta para questionar capacidade de articulação e previsibilidade do adversário.
Wellington tentará apresentar as mudanças como consequência natural da construção de uma coalizão ampla. O eleitor decidirá qual interpretação prevalecerá.
Reinaldo Morais não entra apenas porque é empresário. Entra porque é empresário do agro, filiado ao Novo, identificado publicamente com Bolsonaro e referendado por Michelle.
Aquela imagem de 2024, em que aparece na unção dos pés do ex-presidente, parecia então apenas uma cena peculiar da política mato-grossense. Agora adquiriu função eleitoral. Depois de transformar a escolha do vice numa novela, Wellington tenta fazer do capítulo final uma demonstração inequívoca de identidade.
Nota de Transparência
O episódio envolvendo Jair Bolsonaro é descrito nesta reportagem como “unção dos pés” porque registros jornalísticos de 2024 mencionam o uso de óleo e uma oração religiosa. A expressão “lava-pés” pode ser empregada como referência simbólica ao rito cristão, mas não é utilizada aqui como descrição literal do procedimento. Dados sobre patrimônio e trajetória eleitoral devem ser lidos conforme as declarações apresentadas à Justiça Eleitoral em cada pleito.






