NOTICIÁRIO Segunda-feira, 17 de Agosto de 2026, 00:01 - A | A

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ELEIÇÕES 2026

Janaína começa pelo interior e transforma capilaridade em aposta para chegar ao Senado

Mauro Camargo

Imagem ilustrativa recuperada de video da Internet

Medeiros, Virgínia, Jéssica e Janaina

Janaína Riva não escolheu Cuiabá para abrir sua campanha ao Senado. Também não organizou um grande ato destinado a produzir a fotografia oficial da largada.

Preferiu começar pelo interior.

Neste domingo (16), primeiro dia da campanha eleitoral, a deputada estadual esteve em Paranaíta, a 838 quilômetros de Cuiabá, onde participou de um culto de gratidão da Igreja Batista Nacional Shalom. Depois, seguiu a agenda no norte de Mato Grosso.

A escolha combina com a candidatura que Janaína construiu.

Depois de quatro mandatos na Assembleia Legislativa, ela chega à disputa pelo Senado com uma vantagem importante sobre boa parte dos adversários: é conhecida fora da região metropolitana e construiu relações políticas em municípios espalhados pelo Estado.

Não precisa começar apresentando o nome.

Precisa convencer o eleitor a mudar seu endereço político da Assembleia para Brasília.

A primeira fotografia da campanha também revelou a complexidade das alianças construídas para esta eleição.

Em Paranaíta, Janaína apareceu ao lado de Reinaldo Morais, o “Rei do Porco”, candidato a vice-governador na chapa de Wellington Fagundes. Mais tarde, em Alta Floresta, dividiu ambiente político com personagens como José Medeiros e Virginia Mendes.

Não significa que todos estejam no mesmo projeto eleitoral.

Significa que a eleição para o Senado produzirá cruzamentos que a disputa pelo Governo não produz.

Cada eleitor terá dois votos.

Essa característica permite alianças formais, apoios cruzados e estratégias de segundo voto que tornam a corrida muito menos linear.

Janaina larga no pelotão da frente

A principal diferença entre Janaína e vários candidatos ao Senado está nos números de largada.

Pesquisa Real Time Big Data divulgada na quarta-feira (12) colocou Mauro Mendes com 27% das intenções no cenário consolidado e Janaína com 25%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados no limite da margem.

Carlos Fávaro aparece com 13%, José Medeiros com 12% e Pedro Taques com 11%.

Outro levantamento, da Percent Brasil, divulgado neste domingo, também registra aproximação entre os dois primeiros. Na média entre primeiro e segundo votos, Mauro aparece com 20% e Janaína com 18,9%.

Mais importante do que a fotografia é o movimento registrado pela Percent.

Janaína cresceu 2,5 pontos em relação ao levantamento anterior. Mauro caiu 5,3 pontos.

Seria precipitado atribuir essa movimentação à Operação Heritage.

A proximidade temporal existe, mas pesquisa eleitoral registra preferência dos entrevistados em determinado período; não estabelece sozinha a causa das mudanças. Outros acontecimentos políticos também ocorreram entre as rodadas.

A Heritage, entretanto, acrescentou uma variável importante à disputa.

Janaína era uma das principais adversárias políticas de Mauro antes da operação e já questionava o acordo entre o Governo de Mato Grosso e a Oi.

Agora terá de decidir quanto espaço dará ao assunto.

Existe uma diferença entre explorar eleitoralmente uma investigação e cobrar explicações sobre um fato de interesse público.

Essa fronteira será testada durante a campanha.

MDB dentro da chapa de Wellington

Há outro desafio.

Janaína precisa aproveitar a estrutura eleitoral construída em torno de Wellington sem desaparecer dentro dela.

O senador começou a disputa pelo Governo liderando as pesquisas e com forte identificação com o eleitorado conservador. O MDB oferece capilaridade municipal à aliança, enquanto Janaína acrescenta uma candidatura competitiva ao Senado.

Mas ela possui eleitorado próprio.

É justamente essa autonomia que poderá permitir buscar votos fora dos limites da chapa majoritária.

Para uma eleição com duas escolhas ao Senado, isso é decisivo.

O eleitor pode votar em Wellington para governador e Janaína para senadora.

Mas também pode escolher Pivetta ou Natasha para o Governo e ainda entregar um dos votos do Senado à deputada.

A campanha provavelmente tentará preservar essa permeabilidade.

Sobrenome ajuda e cobra

Janaína carrega ainda uma característica que nenhum outro candidato possui na mesma intensidade.

Seu sobrenome é simultaneamente ativo e passivo.

Filha do ex-deputado José Riva, personagem que dominou por anos a Assembleia Legislativa e posteriormente foi condenado em processos relacionados a desvios de recursos públicos, Janaína passou boa parte da carreira tentando construir uma identidade própria sem negar a relação familiar.

Esse processo produziu uma política de características particulares.

Ela consegue dialogar com setores conservadores, possui trânsito entre servidores públicos, construiu forte presença no interior e frequentemente adota posições independentes das orientações partidárias.

A candidatura ao Senado será o maior teste dessa autonomia.

Até agora, funcionou eleitoralmente para a Assembleia.

Brasília exige outra escala.

A candidata que não precisava de um lançamento

Talvez seja por isso que Janaína tenha começado sem um grande palco.

Pivetta precisava voltar a Lucas para contar sua história.

Wellington quis mostrar energia começando à meia-noite.

Natasha precisava apresentar sua candidatura ao Estado.

Mauro precisava defender o legado.

Janaína tem outra necessidade.

Precisa percorrer Mato Grosso.

Começou fazendo exatamente isso.

A fotografia em Paranaíta pode parecer menos grandiosa do que um comício em Cuiabá. Mas traduz a lógica de uma candidatura que pretende transformar presença territorial em votos.

Janaína entra oficialmente na corrida numa posição que poucos candidatos ao Senado possuem: não precisa provar que pode chegar ao grupo da frente.

Já está nele.

Agora precisa permanecer.

E, numa eleição com dois votos, permanecer entre os dois primeiros vale muito mais do que liderar sozinho uma pesquisa em agosto.

Leitura política - A campanha de Janaína deve ser observada menos pela disputa da liderança e mais pela capacidade de atravessar diferentes eleitorados.

Ela pode receber votos de eleitores de Wellington, mas precisa buscar também o segundo voto de quem escolher candidatos pertencentes a outros campos.

Esse é um ativo importante.

A proximidade com Mauro nas pesquisas transforma Janaína em alvo natural. Fávaro, Medeiros, Taques e os demais candidatos não disputarão apenas votos com Mauro. Precisam retirar votos também dela para entrar efetivamente na briga pelas duas cadeiras.

Janaína começa, portanto, como candidata a ser perseguida.

É uma posição confortável em agosto.

O desafio é chegar nela em outubro.

 

Nota de Transparência

As informações sobre a agenda deste domingo foram confrontadas com registros de veículos que acompanharam a largada eleitoral. Os números da Real Time Big Data citados são do levantamento realizado entre 7 e 11 de agosto, com 1.600 eleitores e margem de erro de dois pontos percentuais. A eventual relação entre oscilações nas pesquisas e a Operação Heritage é tratada como hipótese eleitoral, não como causalidade demonstrada. Antes da publicação, o número de registro de cada pesquisa na Justiça Eleitoral deve constar obrigatoriamente nesta nota; não o reproduzo sem confirmação documental segura.



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