O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirigiu-se diretamente aos homens brasileiros durante cerimônia de expansão da Refinaria Abreu e Lima em Ipojuca (PE) nesta terça-feira (2). A fala ocorreu após três casos brutais de feminicídio ganharem destaque nacional nos últimos dias. "O que está acontecendo na cabeça desse animal que é tido como a espécie mais inteligente do planeta Terra?", questionou, ecoando a indignação da primeira-dama Janja, que, segundo seu relato, chorou em três ocasiões ao acompanhar as reportagens sobre os casos.
Na capital paulista, dois episódios marcaram o final de semana. Um homem atirou seis vezes na ex-companheira na zona norte na segunda-feira (1º), após ela decidir encerrar o relacionamento. No sábado (29), outro agressor atropelou e arrastou sua vítima por cerca de um quilômetro, causando a amputação das pernas da mulher. No Recife, a violência atingiu proporções ainda mais dramáticas quando um incêndio provocado pelo marido tirou a vida de sua esposa grávida e dos quatro filhos do casal.
Campeão nacional
Em Mato Grosso, os números mantêm o estado no topo do ranking nacional de feminicídios pelo terceiro ano consecutivo. Dados compilados pela reportagem mostram 58 casos registrados até novembro deste ano, após 61 ocorrências em 2023. Cuiabá, Rondonópolis e Várzea Grande concentram quase 50% desses crimes. Um detalhe preocupante: 67% dos feminicídios no estado são cometidos com armas de fogo, porcentagem superior à média nacional de 53%.
A Central de Atendimento à Mulher em Mato Grosso registrou crescimento de 22% nas denúncias este ano, enquanto o Disque 180 contabilizou 98.456 relatos de violência contra mulheres em todo o país até novembro, com aumentos significativos após feriados prolongados. Lula anunciou a preparação de uma campanha nacional com foco na conscientização masculina, declarando: "Vamos fazer uma campanha forte de homens conscientizando outros homens".
O feminicídio, crime hediondo com penas de 20 a 40 anos de reclusão desde a Lei nº 14.994 (de autoria da senadora Margareth Buzetti - MT) sancionada em outubro de 2024, corresponde a 30% dos assassinatos de mulheres no Brasil. A nova legislação elevou a penalidade anterior de 12 a 30 anos e estabeleceu o feminicídio como crime autônomo. Pesquisas mostram que 72% são cometidos por parceiros ou ex-parceiros, e que em 85% dos casos havia histórico de agressões anteriores. Na avaliação de especialistas consultados pela reportagem, esses números refletem uma cultura de violência de gênero ainda profundamente enraizada, exigindo políticas públicas integradas e permanente atenção da sociedade.





