NOTICIÁRIO Domingo, 16 de Agosto de 2026, 23:25 - A | A

Domingo, 16 de Agosto de 2026, 23h:25 - A | A

ELEIÇÕES 2026

Mauro entra na campanha para defender o legado e fazer Pivetta chegar aos 12 anos

Mauro Camargo

Mayke Toscano

Mauro Mendes lança candidatira

Mauro Mendes entrou oficialmente na campanha eleitoral neste domingo (16) fazendo aquilo que, até poucos dias atrás, parecia ser o roteiro natural de sua candidatura ao Senado: defendendo os resultados de seu governo e apresentando Otaviano Pivetta como continuidade de um ciclo que pretende prolongar por mais quatro anos.

A diferença é que a eleição mudou antes mesmo de começar.

Mauro subiu ao palanque em Lucas do Rio Verde dez dias depois da deflagração da Operação Heritage, investigação da Polícia Federal que colocou o ex-governador, familiares e personagens importantes de seu grupo político sob escrutínio e já produziu consequências na organização da campanha governista.

Foi nesse ambiente que escolheu falar em “batalha”.

“Vamos lutar a boa luta, vamos falar a verdade, vamos conquistar mentes e corações”, afirmou, ao defender que a eleição não deveria ser tratada como uma disputa pessoal de Mauro, Pivetta ou dos demais candidatos, mas como uma escolha sobre o futuro de Mato Grosso.

A largada ocorreu no mesmo ato em que Pivetta abriu sua campanha à reeleição, no Lago Ernane José Machado, em Lucas do Rio Verde. A cidade é o berço político do governador e foi escolhida para recuperar sua trajetória como prefeito e construir uma identidade eleitoral própria.

Para Mauro, o significado era outro.

Lucas serviu para reafirmar a parceria.

E para dizer que o projeto iniciado em 2019 ainda não terminou.

Do oito para doze

Mauro defendeu que Mato Grosso complete um ciclo de “12 anos de prosperidade”.

A conta é política.

São os oito anos iniciados com sua chegada ao Palácio Paiaguás, em 2019, somados aos quatro anos de um eventual novo mandato de Pivetta. O ex-governador apresentou essa continuidade como alternativa ao que chamou de “velha política”, contrapondo resultados administrativos a promessas eleitorais.

A expressão ajuda a compreender o papel que Mauro pretende desempenhar na eleição.

Ele não disputa apenas uma vaga no Senado.

Disputa também a interpretação sobre seu governo.

Mauro quer convencer o eleitor de que deixou um Estado fiscalmente reorganizado, com capacidade de investimento, expansão da infraestrutura e obras que justificariam entregar a Pivetta mais quatro anos para completar o ciclo.

No discurso, citou mais de 7 mil quilômetros de rodovias asfaltadas, investimentos realizados com municípios, escolas estaduais e os novos hospitais públicos de Cuiabá e Alta Floresta.

Também voltou à BR-163.

A aquisição do controle da concessionária pelo Governo de Mato Grosso tornou-se uma das vitrines do discurso governista e foi lembrada tanto por Mauro quanto por Pivetta. O atual governador apresentou a operação como exemplo de decisão que parecia improvável, mas que teria sido viabilizada pela capacidade técnica e financeira do Estado.

Não por acaso.

A rodovia permite aos dois contar uma história conjunta.

Pivetta pode reivindicar participação na decisão.

Mauro pode reivindicar a gestão que tornou a operação possível.

É a representação quase perfeita da continuidade que a campanha pretende vender.

Heritage mudou a pergunta

Até 6 de agosto, a principal pergunta dirigida a Mauro provavelmente seria sobre aquilo que entregou durante o governo.

Depois da Heritage, existe outra.

O que aconteceu no acordo de aproximadamente R$ 308 milhões envolvendo o Estado e a Oi?

A Polícia Federal investiga suspeitas relacionadas ao acordo e à posterior movimentação dos recursos. Mauro nega irregularidades e sustenta a legalidade da operação. Também passou a acusar adversários de exploração política da investigação.

As suspeitas estão sob investigação.

Busca, quebra de sigilo ou qualquer outra medida cautelar não equivale a condenação. Tampouco as hipóteses formuladas pela Polícia Federal podem ser tratadas jornalisticamente como responsabilidades definitivamente estabelecidas.

Mas o impacto político existe independentemente do desfecho criminal.

Heritage entrou na campanha.

E entrou justamente no ponto mais sensível da candidatura de Mauro: sua imagem de gestor.

Durante anos, o ex-governador construiu sua comunicação em torno de conceitos como eficiência, austeridade, capacidade administrativa e aplicação responsável do dinheiro público.

A investigação alcança uma operação financeira realizada pelo Estado durante sua administração.

Isso não prova responsabilidade criminal.

Mas produz uma questão eleitoral inevitável.

E explica por que a campanha que Mauro chamou de “batalha por Mato Grosso” será também uma batalha pela interpretação de seu próprio legado.

Pivetta precisa de Mauro - e de espaço

O ato de Lucas mostrou que não haverá, pelo menos neste momento, tentativa de afastamento entre os dois.

Mauro permaneceu no palanque.

Pivetta reafirmou a parceria.

Os dois reconstruíram publicamente uma relação política que remonta à eleição de 2010 e ganhou novo formato em 2018, quando passaram a integrar o mesmo projeto estadual.

É uma escolha lógica.

Mauro continua sendo um dos maiores ativos eleitorais de Pivetta. Seu governo fornece ao atual governador obras, números, programas e resultados para apresentar ao eleitor.

Ao mesmo tempo, Pivetta começou nos últimos dias um movimento de diferenciação.

Passou a atacar diretamente Wellington Fagundes, questionando sua trajetória, emendas e relações políticas. Em Lucas, utilizou sua própria biografia administrativa para tentar deixar de ser percebido apenas como sucessor de Mauro.

As duas estratégias não são incompatíveis.

Mas precisam de equilíbrio.

Pivetta necessita de Mauro para sustentar a tese da continuidade.

E necessita de identidade própria para não herdar automaticamente todos os passivos do ex-governador.

Mauro, por sua vez, precisa da vitória de Pivetta para validar eleitoralmente a própria gestão.

Os “12 anos de prosperidade” dependem dos dois.

Uma campanha casada

Essa interdependência ficou evidente no primeiro ato.

Mauro não fez um lançamento separado para o Senado. Começou no território político de Pivetta e utilizou boa parte do discurso para defender a permanência do grupo no Governo do Estado.

A composição do palanque reforçou a mensagem.

Estavam presentes Gisela Simona, candidata a vice de Pivetta; Margareth Buzetti e Antônio Galvan, que também disputam o Senado; além de deputados, prefeitos, candidatos proporcionais e lideranças políticas.

Mauro e Pivetta parecem apostar numa campanha casada.

Um oferece ao outro aquilo que mais precisa.

Mauro empresta realizações de governo.

Pivetta oferece futuro ao legado de Mauro.

A equação funcionava com relativa simplicidade antes da Heritage.

Agora ganhou uma variável externa.

A disputa pelas duas vagas

Mauro começa a eleição em posição competitiva.

Mato Grosso elegerá dois senadores entre dez candidatos registrados. No levantamento Real Time Big Data realizado entre 7 e 11 de agosto, Mauro apareceu com 27% no consolidado dos votos, enquanto Janaina Riva registrou 25%. A diferença está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Há ainda uma particularidade importante.

Quando a pesquisa separa primeiro e segundo votos, Mauro apresenta desempenho mais forte como primeira escolha, enquanto Janaina cresce entre os eleitores que indicam o segundo nome para o Senado.

Isso muda a natureza da disputa.

Não basta a Mauro conservar uma base fiel.

Ele precisará também competir pela segunda escolha de eleitores que podem votar em candidatos de campos políticos diferentes.

Carlos Fávaro tentará fazer exatamente isso utilizando sua passagem pelo Ministério da Agricultura e a relação com prefeitos.

José Medeiros disputará o eleitorado bolsonarista.

Pedro Taques tentará transformar experiência institucional e oposição a Mauro em argumento.

Janaina buscará ampliar uma candidatura que já aparece competitiva nas pesquisas.

Margareth Buzetti e Antônio Galvan também procurarão espaço num ambiente em que cada eleitor possui dois votos.

A Heritage acrescenta uma incógnita a esse quadro.

A pesquisa Real Time começou a ser coletada um dia depois da operação. Por isso, não pode ser tratada como levantamento anterior ao caso, mas tampouco permite medir integralmente seus efeitos, já que as consequências políticas se desenvolveram durante e depois da coleta.

A próxima rodada será particularmente importante para Mauro.

Várzea Grande e a “velha política”

O lançamento também mostrou como o grupo pretende confrontar adversários fora da discussão sobre a operação.

Pivetta utilizou Várzea Grande como exemplo de administração que, segundo ele, falhou durante décadas em assegurar serviços básicos à população.

Falou especificamente da falta de água e defendeu a intervenção estadual por meio da chamada Aliança da Água.

A declaração tem peso eleitoral.

Várzea Grande é o segundo maior município do Estado e possui forte tradição de grupos políticos locais. Ao associar problemas históricos da cidade à “velha política”, Pivetta cria um contraste conveniente com a ideia de eficiência administrativa que sustenta sua aliança com Mauro.

Mas há uma exigência jornalística.

Quanto mais a campanha utilizar resultados administrativos como argumento, mais esses resultados precisarão ser testados.

Obras entregues.

Obras prometidas.

Custos.

Prazos.

Indicadores de saúde e educação.

Endividamento.

Investimentos.

E também decisões tomadas durante o governo.

A eleição de 2026 tende a produzir uma auditoria política dos últimos oito anos.

A batalha de Mauro

Talvez por isso a palavra escolhida pelo ex-governador tenha sido tão adequada ao momento.

“Batalha”.

Mauro entra na eleição liderando ou dividindo a liderança das pesquisas para o Senado, amparado por um governo que deixou índices relevantes de investimento e por uma estrutura política espalhada pelos municípios.

É uma posição forte.

Mas não é mais a mesma posição de antes de 6 de agosto.

Heritage introduziu uma variável que sua campanha não controla.

A estratégia apresentada em Lucas é responder reafirmando o legado.

Mais estradas.

Mais hospitais.

Mais escolas.

Mais quatro anos com Pivetta.

Do outro lado, os adversários tentarão obrigá-lo a discutir o acordo da Oi e tudo aquilo que a investigação ainda possa produzir.

Mauro pretende fazer da eleição um julgamento político sobre os resultados de sua gestão.

Seus adversários tentarão ampliar o objeto desse julgamento.

É nesse confronto que os “12 anos de prosperidade” serão testados.

Porque Mauro Mendes não disputa apenas uma das duas cadeiras de Mato Grosso no Senado.

Depois da Heritage, disputa também qual será a memória política dos seus oito anos no Palácio Paiaguás.

Leitura Política - O primeiro ato deixou clara uma relação de dependência eleitoral que funciona nos dois sentidos.

Pivetta precisa do legado de Mauro para explicar por que merece mais quatro anos.

Mauro precisa da vitória de Pivetta para demonstrar que seu modelo de governo foi aprovado pelo eleitor a ponto de sobreviver ao próprio autor.

Antes da Heritage, essa associação era quase inteiramente positiva para os dois.

Agora há ativos e passivos circulando na mesma chapa.

Por isso, a estratégia não parece ser esconder Mauro. Seria difícil e provavelmente contraproducente. O movimento é dar mais identidade a Pivetta enquanto Mauro assume pessoalmente a defesa do legado.

Lucas produziu essa divisão de tarefas.

Pivetta contou sua história.

Mauro defendeu a história do governo.

A eleição dirá se o eleitor enxergará as duas como partes do mesmo projeto — e, principalmente, se considerará que esse projeto merece chegar aos 12 anos.

 

Nota de Transparência

As informações sobre o lançamento foram confrontadas com registros jornalísticos publicados neste domingo (16). Declarações sobre obras, investimentos e resultados administrativos reproduzem argumentos apresentados por Mauro Mendes e Otaviano Pivetta e devem ser avaliadas à luz dos dados oficiais de cada política pública.

As referências à Operação Heritage são feitas exclusivamente para contextualizar seus efeitos políticos e eleitorais. A investigação da Polícia Federal está em andamento. Buscas, quebras de sigilo, medidas cautelares e hipóteses investigativas não representam condenação nem permitem antecipar responsabilidade criminal. Mauro Mendes nega irregularidades e sustenta a legalidade do acordo envolvendo a Oi.

Os dados eleitorais mencionados são da pesquisa Real Time Big Data realizada com 1.600 eleitores entre 7 e 11 de agosto de 2026, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%, registrada na Justiça Eleitoral sob o protocolo MT-04560/2026. O levantamento começou um dia depois da deflagração da Heritage e não permite estabelecer relação causal entre a operação e o desempenho de qualquer candidato.

A interpretação de que Mauro disputa simultaneamente uma vaga no Senado e a avaliação política de seu legado administrativo constitui análise editorial do Nossa República, baseada no conteúdo de seu discurso de lançamento, na associação explícita com a candidatura de Pivetta e no novo ambiente eleitoral produzido pela investigação.



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Redação: Av. Historiador Rubens de Mendonça, nº 2000, 12º andar, sala 1206, Centro Empresarial Cuiabá

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