NOTICIÁRIO Sábado, 15 de Agosto de 2026, 10:00 - A | A

Sábado, 15 de Agosto de 2026, 10h:00 - A | A

EMBATE ELEITORAL

Pivetta parte para o ataque contra Wellington após Heritage

Mauro Camargo

Ilustração produzida com IA

Estratégia de ataques

 

Otaviano Pivetta decidiu mudar de posição na eleição de Mato Grosso. Depois de passar praticamente uma semana reagindo às consequências políticas da Operação Heritage, o governador saiu da defensiva e escolheu Wellington Fagundes como alvo direto.

A mudança ficou explícita na sexta-feira. Pivetta questionou a trajetória do senador, sua atuação em Brasília e a destinação das emendas parlamentares acumuladas ao longo dos últimos anos. Disse que Wellington teria movimentado mais de R$ 1,5 bilhão em emendas em 12 anos e prometeu mostrar durante a campanha onde esses recursos foram aplicados.

A cifra é uma afirmação de Pivetta e, para efeito jornalístico, precisa ser confrontada com os sistemas oficiais de execução orçamentária antes que possa ser assumida pelo Nossa República como valor consolidado.

Mais importante que o número, porém, é a decisão política por trás do ataque.

Até agora, era Wellington quem fazia as perguntas.

A partir deste fim de semana, Pivetta pretende obrigá-lo a responder algumas.

A Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal em 6 de agosto, atingiu personagens importantes do grupo que governou Mato Grosso sob Mauro Mendes e agora sustenta a candidatura de Pivetta.

A PF cumpriu mandados de busca numa investigação que envolve o acordo de aproximadamente R$ 308 milhões firmado pelo Estado com a Oi. Mauro Mendes e Fábio Garcia estão entre os personagens alcançados por medidas investigativas. As cautelares não representam condenação e as responsabilidades individuais continuam sendo apuradas.

Politicamente, entretanto, os efeitos foram imediatos.

Fábio deixou a candidatura a vice-governador. Gisela Simona assumiu seu lugar. Mauro Carvalho deixou a Casa Civil. Antes disso, Francisco Lopes havia deixado o comando da Procuradoria-Geral do Estado.

Pivetta passou vários dias administrando uma crise que não havia sido produzida por sua campanha, mas que atingia diretamente a estrutura política sobre a qual sua candidatura fora construída.

Defendeu os aliados, afirmou confiar em sua inocência e criticou a utilização eleitoral da operação. Agora procura mudar o assunto.

A eleição que Pivetta quer disputar

Existe um risco evidente para o governador: permitir que a campanha seja convertida numa espécie de referendo sobre Mauro Mendes.

Se Wellington conseguir organizar a disputa entre continuidade e mudança, a Heritage passa a funcionar como argumento permanente contra o governismo.

Pivetta precisa de outro enquadramento. Sua ofensiva indica qual será. Em vez de discutir apenas os anos do governo Mauro, quer discutir também as quase quatro décadas de Wellington na política.

Em vez de responder apenas sobre o acordo da Oi, pretende perguntar sobre emendas parlamentares. Em vez de deixar que Wellington questione a qualidade administrativa e ética do governo, quer colocar sob escrutínio o legado do senador. É uma mudança estratégica relevante.

Pivetta chamou Wellington de negociador voraz de emendas e anunciou que pretende apresentar levantamento sobre os recursos destinados pelo adversário. Aqui começa uma das frentes em que campanha e jornalismo precisam seguir caminhos distintos.

Emendas parlamentares são instrumento constitucional e, por si, não constituem irregularidade. Podem financiar hospitais, estradas, equipamentos, obras municipais e outras políticas públicas.

A pergunta verificável é outra: quanto Wellington efetivamente indicou, quanto foi empenhado e pago, quais municípios e entidades receberam, quais obras foram executadas e quais resultados foram entregues?

É nessa documentação, e não no adjetivo eleitoral, que a acusação de Pivetta poderá ser testada.

O mesmo vale para referências ao patrimônio do senador. Declarações apresentadas à Justiça Eleitoral são públicas e permitem reconstruir evolução patrimonial. Crescimento patrimonial, entretanto, não constitui automaticamente indício de ilícito. Qualquer questionamento precisa ser acompanhado de documentação e contexto.

Escrutínio dos dois lados

A mudança de estratégia tem custo. Ao transformar a eleição numa disputa de escrutínio, Pivetta abre caminho para que Wellington responda com a Heritage, o acordo da Oi e as relações entre o atual governo e a administração Mauro Mendes.

A campanha tende, portanto, a entrar numa fase mais agressiva. Pivetta perguntará o que Wellington entregou a Mato Grosso depois de décadas no Congresso.  Wellington perguntará o que o grupo que administra Mato Grosso tem a explicar sobre uma investigação federal que alcançou personagens centrais de sua estrutura política.

Nenhuma dessas perguntas pode ser respondida apenas por propaganda. A ofensiva revela ainda uma tentativa de Pivetta de construir identidade própria. Durante meses, sua principal fortaleza foi apresentar-se como continuidade de uma administração bem avaliada. Depois da Heritage, a mesma proximidade passou a representar também risco.

O governador precisa executar uma operação eleitoral delicada: preservar os resultados e a estrutura política herdados de Mauro Mendes sem carregar integralmente seus passivos. A troca de Fábio Garcia por Gisela Simona já permitiu alguma diferenciação.

A ofensiva contra Wellington completa o movimento. Pivetta tenta deixar de ser o candidato que explica a crise dos aliados para voltar a ser o candidato que define o assunto da eleição.

Nota de Transparência

As referências a valores de emendas e patrimônio nesta reportagem decorrem de declarações políticas de Otaviano Pivetta e devem ser confrontadas com registros oficiais antes de serem assumidas como conclusões jornalísticas. A Operação Heritage é uma investigação em andamento, e medidas cautelares ou buscas não equivalem a responsabilização criminal. A análise sobre a mudança de estratégia da campanha é interpretação editorial do Nossa República.



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