Otaviano Pivetta escolheu voltar ao lugar onde sua trajetória política começou para iniciar uma campanha na qual terá justamente o desafio de explicar ao eleitor quem é.
Na manhã deste domingo (16), primeiro dia em que a legislação permite oficialmente o pedido de votos, o governador abriu sua campanha à reeleição em Lucas do Rio Verde, município onde se estabeleceu em Mato Grosso, construiu parte importante de sua trajetória empresarial e exerceu três mandatos como prefeito.
O cenário foi o Lago Ernane José Machado. Segundo estimativa divulgada pela organização, cerca de 4 mil pessoas participaram do ato. O número não foi aferido de maneira independente pelo Nossa República.
Pivetta chegou de bicicleta.
Antes do encontro, pedalou pela cidade ao lado do prefeito Miguel Vaz, percorrendo parte da ciclovia da Avenida das Emas. Ao terminar o percurso, recuperou uma lembrança do período em que administrava Lucas e costumava usar a bicicleta para acompanhar a cidade.
“Saudade do tempo em que eu sonhava as obras aqui de bicicleta”, disse.
A imagem não poderia ser mais conveniente para o primeiro dia de campanha.
A bicicleta, Lucas do Rio Verde e o discurso municipalista ajudaram a compor uma fotografia destinada a apresentar Pivetta menos como o sucessor de Mauro Mendes e mais como um político com história administrativa própria.
Depois da Operação Heritage, essa necessidade tornou-se ainda maior.
Mauro, entretanto, estava lá.
O ex-governador e candidato ao Senado participou do lançamento ao lado da candidata a vice-governadora, Gisela Simona, do prefeito Miguel Vaz e de lideranças da coligação. Também estiveram no evento os candidatos ao Senado Margareth Buzetti e Antônio Galvan, além de Neri Geller, do deputado estadual Diego Guimarães e outros aliados.
A composição do palanque oferece a primeira resposta a uma pergunta que passou a acompanhar Pivetta desde a Heritage: o governador tentará se afastar de Mauro Mendes?
Pelo menos por enquanto, não.
E talvez essa nunca tenha sido exatamente a questão.
O desafio mais complexo é preservar os ativos políticos e administrativos de uma gestão da qual Pivetta participou durante quase oito anos sem permitir que sua candidatura seja inteiramente definida pelo antecessor — especialmente agora que a Heritage colocou personagens importantes desse grupo sob investigação.
A operação da Polícia Federal já produziu consequências concretas na política. Fábio Garcia deixou a candidatura a vice e voltou à disputa pela Câmara. Gisela Simona assumiu seu lugar. Também ocorreram mudanças no governo.
Nada disso significa antecipação de responsabilidade criminal. A investigação está em andamento e medidas cautelares não equivalem a condenação.
Eleitoralmente, porém, a Heritage alterou o ambiente em que Pivetta inicia a campanha.
Em Lucas, a resposta foi falar pouco da crise e muito de Pivetta.
Uma biografia para apresentar
O governador não renegou a administração da qual participou.Ao contrário.
Defendeu os resultados obtidos desde 2019 e apresentou o atual ciclo de governo como responsável por recuperar a capacidade de investimento e um sentimento de confiança dos mato-grossenses no Estado.
Mas acrescentou outra camada ao discurso: sua própria experiência.
Lucas do Rio Verde funciona há décadas como a principal vitrine administrativa de Pivetta. Ele comandou o município entre 1997 e 2004 e novamente entre 2013 e 2016.
O primeiro ato de campanha permitiu transformar essa experiência em argumento eleitoral.
Pivetta falou de planejamento urbano, calçadas, ciclovias, qualidade de vida e maior participação do Governo do Estado na solução dos problemas municipais. Citou Várzea Grande e o abastecimento de água como exemplo de uma realidade que, em sua avaliação, exige intervenção e cooperação estadual.
É possível enxergar aí um dos eixos da campanha.
Wellington Fagundes, seu principal adversário, construiu grande parte da carreira no Legislativo e em Brasília. Pivetta tentará confrontar essa trajetória com a experiência no Executivo.
Nos últimos dias, começou a fazer a primeira metade desse movimento ao atacar Wellington, questionando suas emendas parlamentares, suas relações políticas e aquilo que teria efetivamente entregue ao Estado durante décadas de vida pública.
Lucas forneceu a segunda metade.
Não basta perguntar pelo currículo do adversário.
Pivetta precisa apresentar o próprio.
E foi justamente no município em que possui seu currículo político mais conhecido que fez talvez a declaração mais reveladora do domingo.
O governador admitiu ser pouco conhecido.
Pivetta disse que sua timidez sempre dificultou a comunicação política, contou que está fazendo media training e estimou que entre 40% e 50% dos mato-grossenses ainda não saibam suficientemente quem ele é. Chegou a afirmar que até em Lucas do Rio Verde talvez metade da população não o conheça.
A afirmação parece paradoxal para alguém que administrou três vezes o município e ocupou a vice-governadoria por quase oito anos.
Na realidade, ajuda a explicar sua campanha.
Pivetta passou boa parte desse período numa posição institucional relevante, mas politicamente secundária à de Mauro Mendes. O protagonismo, as grandes entregas e também os principais confrontos do governo eram associados ao governador.
Agora Pivetta precisa transformar experiência administrativa em identidade eleitoral.
Precisa deixar de ser apenas “o vice de Mauro”.
A escolha de Lucas começa a fazer sentido exatamente aí.
O governador voltou ao território em que não precisa emprestar uma biografia para começar a apresentar a sua.
Mauro permanece; Gisela acrescenta
A presença de Mauro Mendes no palanque demonstra que a campanha não pretende esconder a continuidade.
Isso seria, aliás, eleitoralmente contraditório.
O grupo governista passou meses preparando a eleição com base justamente na avaliação positiva da administração e na ideia de que Pivetta seria capaz de preservar um modelo de gestão considerado bem-sucedido pelos aliados.
Heritage criou um problema novo: como aproveitar esse legado sem absorver automaticamente todo o passivo produzido pela investigação?
A resposta não está pronta. O ato de Lucas, entretanto, ofereceu uma pista. Mauro permanece. Mas Pivetta tenta ocupar o centro.
A nova vice também participa desse reposicionamento.
Gisela Simona chegou à chapa depois da saída de Fábio Garcia e alterou significativamente a composição da majoritária. Mulher, negra, advogada, com trajetória na defesa do consumidor e experiência eleitoral própria, ela acrescenta características que não estavam presentes na formação anterior.
Em Lucas, Gisela falou de políticas públicas e destacou o enfrentamento ao feminicídio.
Se tiver participação efetiva — e não apenas protocolar — poderá ajudar a ampliar uma candidatura até agora fortemente associada ao agronegócio, infraestrutura, empresariado e gestão.
O primeiro ato indicou que a campanha pretende conceder-lhe espaço.Será necessário observar se isso sobreviverá ao cotidiano eleitoral.
A campanha que Pivetta quer disputar
O lançamento também precisa ser lido em conjunto com a mudança de comportamento do governador nos últimos dias. Depois de uma semana na defensiva por causa da Heritage, Pivetta passou ao ataque. Questionou as emendas de Wellington, prometeu escrutinar sua trajetória e começou a recuperar episódios e personagens ligados à longa vida pública do senador.
A intenção parece clara: impedir que a eleição seja transformada num plebiscito exclusivo sobre Mauro Mendes e seu grupo. Se Wellington perguntar sobre Heritage, Pivetta perguntará sobre Brasília. Se o adversário questionar o acordo da Oi, o governador cobrará explicações sobre emendas, alianças e resultados de décadas de mandato.
É uma estratégia de risco.
Ao propor escrutínio, Pivetta legitima também o escrutínio sobre seu próprio grupo. Mas permanecer apenas respondendo provavelmente seria mais perigoso. Lucas marca, portanto, duas mudanças simultâneas. Pivetta saiu da defensiva para o ataque contra Wellington.E começou a tentativa de sair da sombra de Mauro sem abandonar Mauro. Essa talvez seja a operação política mais delicada de sua campanha.
O primeiro dia produziu a fotografia que o governador procurava.
Em vez das imagens que dominaram a política estadual desde 6 de agosto — Polícia Federal, decisões judiciais, investigações e substituições — Pivetta apareceu pedalando, cercado por aliados e falando sobre gestão.
Heritage não desapareceu por causa disso. Nem poderia. A investigação possui calendário próprio, fora do controle dos candidatos, e qualquer novo fato relevante poderá novamente interferir na campanha.
Mauro Mendes, por sua vez, continuará representando uma situação singular: é um dos principais ativos eleitorais de Pivetta e, simultaneamente, o personagem politicamente mais exposto pela operação.
O que aconteceu em Lucas mostra como Pivetta pretende administrar essa contradição. Não pela ruptura. Pela diferenciação. Há uma diferença importante entre continuidade e dependência. Pivetta precisa convencer o eleitor de que representa a primeira sem transmitir a segunda.
Por isso Lucas do Rio Verde foi mais do que o lugar escolhido para o lançamento. Foi o argumento político do lançamento.
O governador voltou à cidade onde começou para lembrar que sua história não nasceu no governo Mauro Mendes. Agora terá pouco menos de dois meses para fazer essa história chegar ao restante de Mato Grosso.
Leitura politica - O principal fato político de Lucas não foi a estimativa de público nem a chegada de bicicleta. Foi a definição inicial do personagem que Pivetta pretende apresentar ao eleitor.
A campanha não rompe com Mauro Mendes, porque abrir mão do legado administrativo significaria abandonar um de seus maiores ativos. Mas também não pode permitir que a eleição seja exclusivamente uma avaliação do grupo de Mauro, especialmente depois da Heritage.
Lucas ofereceu a saída possível: recuperar a biografia municipal de Pivetta, enfatizar sua experiência executiva e transformar o candidato à continuidade num candidato que reivindica autoria própria.
O sucesso dessa estratégia poderá ser medido nas próximas pesquisas por um indicador tão importante quanto a intenção de voto: o grau de conhecimento do candidato.
Pivetta identificou publicamente sua fragilidade. Agora a campanha começa a tentar corrigi-la.
Nota de Transparência
Esta reportagem foi produzida a partir do cruzamento de registros jornalísticos publicados neste domingo (16), informações divulgadas pela campanha e declarações públicas feitas durante o lançamento em Lucas do Rio Verde. A estimativa de aproximadamente 4 mil participantes foi divulgada pela organização/assessoria e reproduzida por veículos que acompanharam o evento; o Nossa República não realizou contagem independente.
As referências à Operação Heritage são utilizadas para contextualizar o ambiente político em que a campanha foi lançada. A investigação está em andamento, e buscas, medidas cautelares ou outras providências investigativas não representam condenação nem autorizam antecipação de responsabilidade criminal. A interpretação sobre a tentativa de Otaviano Pivetta de construir identidade eleitoral própria, preservando simultaneamente sua associação com o legado de Mauro Mendes, integra a análise editorial do Nossa República e está baseada na escolha de Lucas do Rio Verde para o lançamento, na composição do palanque, nos discursos realizados e nas declarações do próprio candidato sobre seu grau de conhecimento entre os eleitores.







