NOTICIÁRIO Domingo, 15 de Fevereiro de 2026, 15:08 - A | A

Domingo, 15 de Fevereiro de 2026, 15h:08 - A | A

POLÍTICA DA BALA

Violência política no Brasil: país registrou mil assassinatos de lideranças em 20 anos

Da Redação

O Brasil registrou 1.228 casos de violência política letal nas últimas duas décadas (2003 a 2023), segundo levantamento divulgado pelo Núcleo de Pesquisa em Instituições Políticas e Movimentos Sociais (NIPOMS), do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Os dados revelam um cenário preocupante para a democracia brasileira: em média, cinco lideranças políticas são assassinadas por mês no país. 

O estudo, baseado em registros policiais e monitoramento de entidades de direitos humanos, indica que a maioria das vítimas ocupa cargos no âmbito municipal — como vereadores, prefeitos e candidatos — ou atua como liderança comunitária em regiões marcadas por conflitos territoriais, disputas fundiárias e presença do crime organizado.

"Na verdade, a pesquisa mostra que a violência política letal se tornou perturbadoramente rotineira no Brasil. Em média, o Brasil registrou 61,4 casos de violência política letal por ano durante o período analisado. Esta figura levanta questões urgentes sobre os esforços para consolidar as instituições democráticas no Brasil em meio a um contexto de violência política desenfreada", diz trecho do estudo. 

Violência política no Brasil deixa de ser episódio isolado e revela padrão estrutural

O relatório aponta que a violência política no Brasil não ocorre de forma esporádica, mas apresenta características sistemáticas, especialmente em áreas onde milícias e facções criminosas buscam influenciar o poder público local. O assassinato de candidatos e agentes públicos é descrito como a forma mais extrema de cerceamento democrático, com impacto direto sobre a participação política.

"Os políticos são responsáveis pela maioria das vítimas, representando 63,1% de todos os casos, enquanto os ativistas representam 35,7%. Os políticos locais são desproporcionalmente afetados, e os líderes são visados com mais frequência do que outros atores políticos", diz trecho do relatório.

No Centro-Oeste, Mato Grosso surge como estado de atenção. O histórico de conflitos agrários, disputas por regularização de terras e interesses econômicos ligados ao agronegócio e à expansão territorial contribuem para um ambiente de tensão em municípios do interior. Em cidades menores, o controle da prefeitura ou da câmara municipal pode significar influência direta sobre contratos públicos, logística regional e decisões fundiárias estratégicas.

"No Centro-Oeste, enquanto ativistas foram assassinados com mais frequência no Mato Grosso do Sul, os casos de políticos quase dobraram no Mato Grosso, com uma taxa de 11,1 casos por milhão", aponta parte do relatório "Democracia mortal: Violência política letal no Brasil". 

Especialistas ouvidos no levantamento apontam que o fenômeno gera um efeito silencioso: a intimidação afasta novos atores da política e reduz a diversidade de candidaturas, enfraquecendo o processo eleitoral.

Impunidade e crime organizado ampliam risco à democracia

Um dos pontos mais graves destacados pelo estudo é o alto índice de impunidade nos crimes de violência política. Em muitos casos, as investigações não conseguem identificar ou responsabilizar os mandantes, que estariam protegidos por redes de influência política e econômica.

A violência letal frequentemente é precedida por ameaças, atentados e intimidações que não recebem proteção institucional adequada. Em determinadas regiões, a fusão entre interesses paroquiais e a atuação de facções criminosas cria um ambiente de risco permanente para lideranças que desafiam estruturas de poder consolidadas.

A violência política letal é um indicador de fragilidade institucional. Quando o Estado não consegue garantir a segurança de quem disputa o voto, o processo eleitoral perde sua essência de livre escolha.

"O relatório também documenta onde e como ocorre a violência política letal. A maioria dos casos ocorre em áreas urbanas, e mais da metade dos assassinatos ocorre em espaços públicos visíveis. Armas de fogo são usadas em 87,5% dos assassinatos, indicando que assassinatos políticos são perpetrados por assassinos contratados profissionais", esclarece o relatório. 

Eleições 2026: Justiça Eleitoral e forças de segurança entram em alerta

Com a aproximação do ciclo eleitoral de 2026, o levantamento acende um sinal de alerta para a proteção de candidatos e agentes públicos. O desafio vai além do combate à desinformação e às fake news: exige estratégia de inteligência territorial, monitoramento preventivo e protocolos específicos de segurança.

Órgãos como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Ministério da Justiça acompanham os dados com o objetivo de fortalecer a rede de proteção em estados considerados críticos.

Especialistas defendem a criação de mecanismos permanentes de prevenção à violência política, incluindo monitoramento de áreas de conflito, integração entre forças estaduais e federais e proteção a lideranças ameaçadas.

A preservação da integridade física de candidatos e representantes eleitos é considerada condição essencial para a saúde democrática. Sem segurança política, o direito ao voto se fragiliza e a democracia passa a conviver com a lógica da força e da eliminação do adversário.



Comente esta notícia

Nossa República é editado pela Newspaper Reporter Comunicação Eireli Ltda, com sede fiscal
na Av. F, 344, Sala 301, Jardim Aclimação, Cuiabá. Distribuição de Conteúdo: Cuiabá, Chapada dos Guimarães, Campo Verde, Nova Brasilândia e Primavera do Leste, CEP 78050-242

Redação: Avenida Rio da Casca, 525, Bom Clima, Chapada dos Guimarães (MT) Comercial: Av. Historiador Rubens de Mendonça, nº 2000, 12º andar, sala 1206, Centro Empresarial Cuiabá

[email protected]/[email protected]

icon-facebook-red.png icon-youtube-red.png icon-instagram-red.png icon-twitter-white.png