Uma questão pendente, de certo modo invisível e carente de uma política pública efetiva é a saúde física e mental do homem violento no convívio com sua companheira, namorada ou esposa, e até com os filhos. Para ele, quando denunciado, o primeiro caminho é a obediência às medidas protetivas ou a prisão, a depender do tipo de violência praticada.
No Brasil, a violência contra a mulher envolve todos os grupos sociais, com predominância dos grupos mais populares, parcela expressiva da população com pouco ou quase nenhum recurso financeiro e baixa escolarização. São quase 60 milhões de pessoas na linha da pobreza, com renda de até um salário-mínimo, segundo o IBGE (2023).
Maridos, ex-maridos, companheiros, namorados, são estes os homens de todos os grupos sociais que mais machucam e até matam as mulheres. Apesar das campanhas de conscientização, acolhimento da mulher vítima da violência, da ação policial, medidas protetivas e agilidade nas decisões jurídicas, os números da violência, ano após ano, são sempre expressivos.
Mas o que levam os homens à violência contra as mulheres de sua intimidade, contra as mães de seus filhos? Para muitos homens, é mais fácil culpar a mulher e silenciar-se diante de uma sociedade que discrimina a mulher e educa o homem para a violência, para ser o vencedor, provedor e senhor absoluto do lar. Há muito se fala que o envolvimento, o testemunho, de homens não violentos é um caminho promissor na luta contra a violência doméstica
Como não poderia de deixar ser, inicialmente a atenção das políticas públicas voltaram-se para a proteção das mulheres. Quanto a busca pela compreensão dos homens violentos, estudos científicos mostram que remonta ao final da década de 1970, na América do Norte, o surgimento de programas dedicados a homens autores de violência (HUV). No Brasil já nos anos de 1990 surgiram iniciativas com o foco de atenção nos homens, na ideia de “masculinidades” e violência.
O surgimento de grupos reflexivos, constituídos por homens autores de violência (HUV) foi e é um caminho adotado por vários estados brasileiros. Estudo publicado em 2020 pelas professoras Cecília Teixeira Soares e Hebe Signorini Gonçalves, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com homens que participaram de um ciclo de 08 encontros reflexivos mostram que este caminho é promissor e poderia ser incorporado ao trabalho de prevenção à violência.
Conforme o estudo, a exemplo de outras experiências, os homens acusados não assumem inicialmente sua condição de criminoso e violento. Culpam as mulheres por tê-los denunciados injustamente. Colocam-se como vítimas. Mas, com o passar dos encontros aprendem como lidar com o stress e a buscar soluções para os conflitos de forma não violenta.
Para as professoras, o potencial contribuitivo dos grupos reflexivos é visível e precisaria estar articulado com ações já adotadas judicialmente para a proteção das mulheres vítimas da violência. A “desnaturalização” da violência de gênero passa por um processo reflexivo, de enfrentamento de práticas culturais machistas e tomada de consciência.
Em Cuiabá, como mostrou o Jornalista Mauro Camargo, em texto publicado nesse portal e o vídeo disponibilizado no canal Nossa República do YouTube, o delegado Mário Demerval conduz um grupo reflexivo, “Papo de Homem para Homem”, com resultados também promissores. Revela que no começo os homens estão com os sentidos armados para se defenderem do que se consideram vítimas, mas também com as trocas ao longo do ciclo de encontros a compreensão e a consciência dos atos cometidos vão sinalizando que a violência não é o caminho da convivência.
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